Deus muda?

Por Gilberto Jr, dia 7/04/2008. 5 Comentários

Aprendi na igreja e nos livros de teologia e filosofia que Deus não muda.

Na lógica formal é simples: Deus é perfeito. Não pode mudar para melhor porque se o fizer não teria sido perfeito antes, não pode mudar para pior porque deixaria de ser perfeito. Portanto não muda. Simples demais.

Aprendi em outros livros que tudo no universo está em constante mudança. Hoje a noite está mais fria do que foi o dia, o frio faz com que as moléculas da janela ao meu lado fiquem ligeiramente mais densas. Eu não vejo a mudança, mas a janela ao meu lado mudou. Como bem diz Lulu Santos, tudo muda o tempo todo no mundo.

Mas Deus faz parte do mundo? As leis que se aplicam a todas as coisas existentes podem se aplicar a Deus? Sim e não.

Não. Porque Deus, ou seja Deus por si mesmo, é o outro, é totalmente outro, outra coisa, outra substância, outra dimensão, algo que nossa mente não pode alcançar. Esse Deus é uma abstração e alvo da análise dos filósofos desde que estes existem. Eles dizem que ele não muda.

Sim. Porque Deus, ou seja, o Deus que se revelou a nós, participa da história . Se não pudermos aceitar isso, teremos que no mínimo aceitar que a revelação de Deus a nós participa da história. O Deus revelado, como tudo neste mundo, só existe em um contexto histórico e social. Para um povo oprimido Deus se revelou como o libertador. Para um povo que não sabia para onde ir ou como se organizar, Deus se revelou como Rei. Para um povo perdido Deus se revelou como o Salvador.

Cristo é Deus completamente dentro da história. Foi gerado, foi feto, foi bebê, criança, adolescente, e morreu adulto aos trinta e poucos anos. Mudou. “Mas Deus em sua essência não mudou”, diriam os manuais de teologia. No entanto, a presença de Cristo na terra e sua Palavra mudaram radicalmente o modo como o mundo entendeu, buscou e relacionou-se com Deus. Aquilo que entendemos como sendo a “essência de Deus” mudou muito durante as muitas batalhas teológicas pelos séculos.

A essência de Deus, Deus em sua totalidade, Deus per se, só Deus sabe o que é.

Mudou ou não mudou? Mudou e não mudou.

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Água, música nova com letra da minha mãe

Por Gilberto Jr, dia 1/04/2008. 2 Comentários

Minha mãe criou um blog onde tem registrado seus últimos poemas.

Um deles, chamado água, me serviu de letra para uma nova música, que você pode ouvir neste endereço:

http://gilbertojr.ocorpo.org/musicas/

É a primeira música que fazemos nesta parceria. Aguardo a opinião de vocês.

Pecado e contexto cultural, uma dúvida.

Por Gilberto Jr, dia 26/03/2008. 6 Comentários

Tenho uma dúvida: até que ponto podemos interpretar a bíblia levando em consideração o contexto cultural?

Um exemplo: no contexto do império romano a mulher deveria estar, desde criança até sua morte, sob a guarda de um homem. Enquanto criança era o pai, depois o marido. Ela não tinha direito a ter posses, aquilo que ela possuía era do seu guardião, e passava de um para outro quando ela passava a pertencer a outro. Os filhos eram posse do marido, que tinha inclusive poder de vida e morte sobre eles.

O divórcio era portanto algo muito ruim para a mulher porque ela perdia todos os seus filhos, a pouca liberdade que tinha como esposa, tinha pouquíssimo perspectiva de conseguir outro marido já que os casamentos eram arranjados quando as moças eram ainda bem jovens ou até crianças. A mulher devia obedecer ao seu guardião, seja ele o pai ou o marido, porque era considerada inapta a (leia-se: tão burra que não era capaz de) tomar as próprias decisões.

Portanto, se um homem do império romano divorcia-se de sua esposa estará fazendo com que ela sofra demais. Por isso, um homem cristão não deveria divorciar-se, para não causar este sofrimento à mulher.

Mas no contexto de hoje uma mulher que tem emprego e pode sustentar-se e aos filhos tem as mesmas condições de um homem. A nossa sociedade reconhece a igualdade entre homem e mulher e dá plenos direitos políticos a elas. Há casos em que o divórcio faz a mulher sofrer menos, não mais.

Volto à minha dúvida, que não é sobre o divórcio em si, mas sobre como devemos entender a bíblia:

O que é melhor, interpretar a bíblia através de dogmas ou procurar o princípio (neste caso, o cuidado com o bem-estar da mulher), a essência que há por trás de cada trecho bíblico, entendo-o através do seu contexto histórico?

O que é melhor, seguir os mandamentos bíblicos rigorosamente como estão ditos ou procurar saber porque o autor disse o que disse, a quem ele se dirigia, e a partir daí procurar aplicar o mesmo princípio nas nossas vidas no nosso contexto histórico-cultural.

Revelação

Por Gilberto Jr, dia 23/03/2008. 4 Comentários

Não podemos falar sobre Deus com a certeza absoluta e arrogante que os cientistas têm ao falar das coisas materiais e da natureza e do universo. Para falar assim seria preciso ter provas materiais da sua existência e ação. Não temos tal coisa.

Não podemos falar sobre Deus com a convicção abstrata dos filósofos, que se limitam a interpretar o mundo mas não são capazes de transformá-lo. Falar de Deus com este tipo de convicção é passar a vida toda enfrentando objeções à Sua existência. É muito difícil e desgastante e eu arriscaria dizer improdutivo argumentar apenas no plano das idéias.

Não podemos nem falar sobre Deus com a fé do religioso. Pois todo religioso de toda religião tem fé. Se eu digo que Deus existe e é assim-assim-assado só porque eu creio nisso, como poderei dizer que quem crê de outra maneira está errado?

Por isso, ao falarmos sobre quem Deus é, sobre seu caráter, sobre a maneira como Ele se relaciona conosco, dependemos exclusivamente da Sua Revelação. Precisamos que Ele se revele a nós e àqueles com quem nos relacionamos.

O Deus que é amor revela-se através do nosso amor ao próximo, ou seja, através das nossas ações na direção de ajudar as pessoas e transformar a sociedade buscando sinalizar o Reino de Deus. Deus também se revela por outros meios misteriosos. Mas prefiro concentrar-me na maneira como Ele me revelou que se revela.

Sobre o crescimento dos evangélicos

Por Gilberto Jr, dia 20/03/2008. Um Comentário

O missionário da Sepal Rubens Muzio publicou um artigo sobre o crescimento dos evangélicos. Citanto estudos recentes do IBGE, ele diz que atualmente giramos ao redor de 20% da população brasileira, ou seja, mais de 35 milhões de pessoas. Se continuar crescendo no mesmo ritmo daquele constatado entre 1991 e 2000, a população evangélica chegará a aproximadamente 55 milhões no ano 2010.

É preciso pensar sobre este crescimento. Em primeiro lugar, a igreja evangélica brasileira é predominantemente pentecostal. Entre as 5 maiores denominações evangélicas, 4 são de origem carismática: Assembléia de Deus, Congregação do Brasil, Universal do Reino de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular. A segunda maior igreja do Brasil é a Batista, com mais de 3 milhões de membros.

O fato da IURD estar entre as 5 maiores do Brasil é sintomático: as igrejas neo-pentecostais estão crescendo muito entre as camadas mais pobres. Estas igrejas têm práticas muito questionáveis, como por exemplo a de pedir dinheiro ao povo pobre prometendo que Deus, por milagre, os fará ricos em retribuição. Entre outros destinos menos honrosos, o dinheiro é usado para abrir novos templos e treinar novos obreiros, em uma linha de produção de novas igrejas cujo conteúdo é bastante pobre.

São igrejas que crescem entre os pobres mas que não fazem nada, ou quase nada, para libertá-los de fato de sua condição material miserável.

Percebemos então que o movimento evangélico está passando por um crescimento quantitativo, que não vem acompanhado por boa qualidade. Mas se pensarmos de maneira dialética considerando que tudo muda da quantidade à qualidade e da qualidade à quantidade podemos ter esperança: essas igrejas que são eficientes em fazer com que mais pessoas se batizem e freqüentem seus cultos podem vir a dar um salto qualitativo, ajudando estas pessoas a conhecerem verdadeiramente o evangelho de cristo, transformando a sociedade e lutando pela justiça e libertação dos oprimidos.

Mas a nossa esperança não é imobilizadora. Precisamos aproveitar estas oportunidades para pregar o Reino de Deus, para ensinar a palavra de Cristo, inclusive e talvez principalmente entre os próprios cristãos.