Unidade na (prática e) Diversidade (na teologia.)
Nós, os cristãos de tradição protestante, acreditamos na Bíblia como sendo uma maneira pela qual Deus se revela ao homem. Mas quem garante que a Bíblia é a revelação de Deus? A própria Bíblia. A Bíblia é, portanto, uma narrativa auto-legitimadora.
A teologia não é a Bíblia. A teologia é outra coisa. É um estudo de Deus. Um estudo racional. Um estudo que aparece na maioria das tradições mais representativas do cristianismo de forma sistemática.
Mas a bíblia não revela Deus de maneira científica, nem sistemática, mas narrativa. No entanto, de acordo com o filósofo francês Jean-François Lyotard, a ciência não aceita que uma narrativa dê legitimidade a si mesma, como a Bíblia faz. A ciência chama isso de superstição, ideologia, preconceito, barbárie…
A teologia sistemática, no entanto, utiliza-se das ferramentas da ciência e da lógica para estudar Deus. E da mesma maneira que a Ciência parece ter falhado na sua tentativa de libertar o ser humano e trazer uma vida perfeita a todos, a teologia parece também ter falhado na sua tentativa de explicar totalmente quem é Deus e suas relações com o homem.
A partir do instante em que os cristãos pensadores tentaram formular uma doutrina escrita, um texto que explique e unifique toda a fé cristã, começaram as brigas e as divisões.
A guerra de séculos para definir se a trindade é composta de três pessoas ou três substâncias ou três pessoas de mesma substância ou três substâncias na mesma pessoa… Essa confusão só mostra os limites da linguagem, que não é capaz de explicar satisfatoriamente a trindade, não por esta ser um mistério absolutamente inexplicável (porque neste caso não poderíamos ter nem uma mera idéia de que ela exista, quanto mais poderíamos tentar definir o que é), mas porque a linguagem do texto escrito não é capaz de defini-la.
Quando lemos, no entanto, na narrativa bíblica, Deus criando a natureza, Deus encarnando e vivendo entre nós, Deus enchendo e inspirando os discípulos, Deus voltando e restaurando tudo em si… Por mais que não possamos explicar com palavras, podemos sentir bem o que é aquilo que a igreja dos primeiros séculos – e não a bíblia – chamaram de “trindade”.
Ser cristão não é aceitar ou acreditar nos dogmas que a teologia sistemática inventou. É seguir a Cristo e viver como Ele nos revela que devemos viver – e não simplesmente conforme as regras que as instituições religiosas inventam.
A teologia sistemática pretende pegar tudo que Cristo ensinou e colocar em caixinhas como “doutrina da salvação”, “doutrina do pecado”, “doutrina do fim dos tempos”… Mas a vida de Cristo, que nós devemos seguir na nossa prática diária, não foi a de ensinar essas matérias, mas a de relacionar-se com as pessoas e sinalizar o Reino de Deus através do amor, transformando o mundo.
As tentativas de sistematizar a Revelação são úteis em certo aspecto. Mas são também perigosas quando supõem que podem abarcar toda a revelação. Isso porque, embora Deus seja um só, Ele se revela de maneira diferente para povos diferentes e pessoas diferentes. Quando a teologia tenta unificar, centralizar, subordinar e sistematizar toda a revelação, empobrece a unidade na diversidade que existe na Palavra.
Viver de maneira a seguir os passos de Cristo é mais importante do que aceitar determinada doutrina. Poder viver de diversas formas diferentes tendo por base uma mesma narrativa é muito mais rico, natural e inteligente do que criar sistemas e instituições guardiões da verdade universal e absoluta.
A verdade não é um sistema teológico, nem um punhado de doutrinas, a verdade é Cristo. Podemos conhecer a verdade que Cristo é através das narrativas das pessoas que viveram com ele – e estas oferecem visões bem diversas dos mesmos fatos. Podemos conhecê-lo também através de práticas espirituais e da sua criação. Mas muito mais importante do que nossas controvérsias em busca de um consenso universal sobre quem Ele é e como devemos segui-lo é a nossa caminhada seguindo seus passos.
Enquanto brigamos pelo número de anjos que cabem na cabeça de uma agulha, o mundo ao nosso redor caminha para a barbárie, para a favelização, para a ruína moral, estética política, econômica, social, cultural…
Deus não está preocupado com a maneira como sistematizamos o conhecimento dEle, mas com a maneira como vivemos uns com os outros.



