Sou e não sou da Igreja Emergente

Por Gilberto Jr, dia 28/07/2008. Um Comentário

Eu sou mesmo um desavisado. Depois de ter passado alguns anos estudando e acreditando que eu estava praticando, crendo, vivendo um cristianismo autêntico e ainda muito diferente, não somente do cristianismo da igreja onde cresci mas da maioria das pessoas que estão à minha volta… Depois de formular com calma e com bastante luta minhas opiniões… Topei por acaso com o artigo da wikipédia em inglês que fala da igreja emergente, Emergin Church.

Percebi então que sou do Emerging Church, e embora já tenha lido livros de diversos autores que são considerados “emergentes”, não havia me dado conta disso até ler o artigo da wikipédia. A descrição que ela faz deste movimento bate com uma enorme parte daquilo que eu penso. Portanto, pertenço a este movimento. Sem saber, já pertencia a ele antes de saber que existia.

Fiquei feliz, pois me sentia absolutamente isolado nas minhas opiniões e vi que não estou sozinho, mas existe muita gente por aí pensando como eu. É bom saber que há tantos autores e blogueiros como eu por aí, cristãos procurando redescobrir uma espiritualidade e uma maneira livre e aberta e verdadeira e pós-moderna de viver o cristianismo.

Os estadunidenses parecem ser educados para dar um contorno marketeiro para as coisas. Emerging Church é um buzzword. Se por um lado dar nomes às coisas é bom, porque eles servem para aglutinar diversos conceitos, por outro lado, nomes como este (assim como outros como “igreja com propósitos” ou “igreja em células”) servem para glamourizar e dar um ar de “É a última Moda” a quem os usa, o que é péssimo.

Como bem disse o Ed René, as idéias da Igreja Emergente vêm sendo desenvolvidas na América Latina, na África, entre outros lugares fora do eixo do primeiro mundo, muito antes do nome existir. Me parece que foi ao ler os nossos teólogos, a nossa missiologia, que alguns estadunidenses começaram a pensar desta maneira e então, como é característica deles, criaram este nome bonito “para dar liga”.

Por isso não sou do Emerging Church, porque os rótulos são simplificantes e reducionistas, porque os modismos vão e vêm, porque não preciso me filiar a nenhum movimento da moda, porque não tenho e não preciso ter uma relação orgânica com este movimento.

Mas o nome ajuda muito, porque ao redor dele e dos artigos que falam dele, juntam-se autores, blogueiros, pessoas que pensam mais ou menos (unidade na diversidade é um dos pontos-chave) desta maneira.

Saber que diversos autores considerados “líderes” no movimento são blogueiros também é bem interessante e me motiva a continuar este blog num espírito de comunidade. Um blog não pode ser uma ilha, ele tem que dialogar com outros blogs. Pesquisando igreja emergente eu encontrei diversos outros blogueiros brasileiros como eu, que não conhecia, o que é bem legal também.

Termino citanto o Ed

Oxalá o Emerging church se torne mais do que uma tentativa de dialogar com a pós-modernidade e um rompimento com o etnocentrismo anglo-americano. Oxalá o primeiro mundo ouça o suspiro dos oprimidos e considere fazer teologia para responder também ao sofrimento do corpo e não apenas às angústias da mente. Oxalá o mercado evangélico publique o que vale a pena ser lido e não o que vende. Oxalá os teólogos acadêmicos ocupem-se não somente com a ortodoxia, mas também com a práxis cristã. Oxalá os pensadores do Emerging church tirem o atraso – são benvindos em nossa estrada. Oxalá sigamos todos cobertos pela poeira dos pés de Jesus.

Vejam minha estréia como ator de teatro

Sabiam que eu sou ator? Pois é…

A cia de teatro na qual eu estou trabalhando, Cia Antropofágica, estréia amanhã a peça “Mas a final, o que é a liberdade?”. É baseada no texto Liberdade Liberdade, de Flávio Rangel e Millôr Fernandes e fala, obviamente, sobre liberdade, passando pela história da humanidade desde Sócrates até a Segunda Guerra. O texto é muito bom, os atores nem tanto :)

Fico em cartaz todo o mês de julho, Sábados às 21h e Domingos às 19hs. A entrada é grátis, no Espaço Pyndorama.

 

O quereres

“Não amem os caminhos do mundo. Não amem as delícias do mundo. O amor pelo mundo faz escorrer de nós nosso amor pelo Pai. Praticamente tudo que acontece no mundo — querer tudo do seu jeito, querer tudo para si mesmo, querer parecer importante — não tem nada a ver com o Pai. Isso só nos distancia dele. O mundo e seus quereres passam, mas aquele que faz o que o Pai quer permanecerá para a eternidade.”

Esta é uma tradução minha da passagem de 1 João 2.15-17 a partir da paráfrase The Message, que eu li por acaso, para conhecer esta versão.

Sabendo mais ou menos de cor este trecho desde pequeno, sempre foi um grande mistério para mim o que eram essas tais concupiscência de que a versão Almeida fala, concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. A NVI traz outra visão: cobiça da carne, cobiça dos olhos e ostentação dos bens.

Na The Message Eugene Peterson oferece esta interpretação dos três quereres: querer tudo do seu jeito, querer tudo para si mesmo, querer parecer importante.

Depois que li esta última versão, fiquei com esses quereres na cabeça. Que me lembra “o quereres”, do Caetano:

O quereres e o estares sempre a fim,
Do que em mim é em ti tão desigual…

Faz-me querer-te bem;
Querer-te mal:

Bem a ti, mal ao quereres assim:

Infinitivamente impessoal;
E eu querendo querer-te sem ter fim!

E querendo-te,
Aprender o total…

Do querer que há;
E do que não há em mim!

Tudo isso, ficou rodando na minha cabeça, lembrando-me que a mensagem do evangelho é uma mensagem que põe fim ao infinito quereres cobiçoso do ser humano. Não ao querer que nos leva pra frente, o querer o bem do próximo, o querer um mundo mais justo. Não ao “só quero aquilo que não é meu”, do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Não…

O amor pelo Pai põe fim ao quereres que faz uma pessoa se virar contra a outra. Ao querer tudo do seu jeito, sem saber negociar para encontrar o bem para o coletivo, usando todo poder que estiver à mão para fazer seu querer realizar-se.  O querer tudo para si, mesmo quando vê o outro em extrema necessidade. O querer parecer importante, justamente porque sabe que não é.

Importante é aquele que ama ao Pai. E quem ama ao Pai ama as pessoas. E quem ama as pessoas não se conforma em vê-las sendo oprimidas sem fazer nada. Este pode olhar para a eternidade com esperança.

Maus Samaritanos

Por Gilberto Jr, dia 9/06/2008. Um Comentário

O fariseu passou por um homem quase morto jogado na beira da estrada e não fez nada. O bom samaritano passou pelo mesmo homem e cuidou dele até que ele tivesse sua dignidade restaurada. Vocês conhecem a parábola.

Os cristãos passam todos os dias, no caminho de casa para o trabalho, para a escola, na cidade, no campo, por dezenas de homens quase mortos jogados na beira da estrada.

Os cristãos sabem que há milhões de homens quase mortos de fome na beira das estradas da sociedade. Que há milhões de homens quase mortos por não fazer nada na vida além de trabalhar para mal conseguir ganhar o pão e morrer sem um leito de hospital na beira das cidades, nas periferias.

Os cristãos sabem que há nações inteiras, povos inteiros, etnias inteiras, e até continentes inteiros jogados quase mortos, na guerra, na fome, na miséria, nas doenças facilmente curáveis, na beira do atual sistema de desenvolvimento.

E individualmente cada um de nós passa ao largo, sem olhar para as pessoas necessitadas que encontramos, exatamente como o farizeu, preocupados com a música que cantaremos no próximo culto de domingo.

E coletivamente a cristandade passa ao largo, sem olhar para as crises sociais, exatamente como o farizeu, preocupados com as nossas instituições, com nossos eventos, com a defesa dos nossos dogmas e da nossa maneira peculiar de entender o que é ser cristão perante idéias não muito divergentes.

Passamos ao largo. Nosso olhar está bem longe do lugar para o qual Deus está olhando. Nossa mão está bem longe do lugar onde está a mão de Deus. Nosso trabalho está bem longe do lugar onde Deus quer que nós trabalhemos.

Cada vez mais fico em dúvida se devo continuar falando a quem não tem ouvidos para ouvir ou se devo me voltar para aqueles que, sem consciência, exatamente como o samaritano que para o farizeu era a pessoa que não conhecia a Lei e não era digna dela nem poderia cumpri-la, estão mais próximos de serem cristãos verdadeiros do que qualquer “cristão exemplar” de qualquer uma das tradições cristãs expressivas de que tenho conhecimento.

Cada vez mais percebo que ser verdadeiramente cristão é não ser aquilo que o consenso eclesiástico diz que é ser cristão. Cada vez mais percebo que ficar longe daquilo que se chama por aí de igreja é a melhor maneira de encontrar o verdadeiro Corpo de Cristo.

Como seria o culto de domingo sem música e mensagem?

Por Gilberto Jr, dia 26/05/2008. Um Comentário

Quando eu era criança, para comer pizza era preciso ir até uma pizzaria. Depois que as pizzarias passaram a entregar pizza em casa, faz pouco sentido ir à pizzaria. No culto, quando chega a hora da mensagem, meu pai costuma dizer: agora vem o prato principal.

Diversas igrejas estão descobrindo a internet. É possível, e relativamente fácil, disponibilizar na internet de graça vídeos com todos os cultos de uma igreja, ou o áudio das músicas e das mensagens.

É a igreja delivery: se antes só podíamos ouvir a mensagem indo à igreja, agora não precisamos mais ir. Se antes precisávamos ir à igreja para ouvir louvores, agora basta colocar um CD ou ligar o rádio. Será que
o culto de domingo ainda faz sentido?

Faz, mas nem tanto para ouvir a Palavra que alimenta nossos corações, nem tanto para ouvir louvores que exaltam a Deus, mas para participar todos juntos dos rituais que unem uma comunidade na direção da edificação mutua, da adoração e do serviço.

Sendo assim, vamos pensar juntos. Imagine que nós (eu e os 200 e poucos assinantes deste blog) estamos formando uma nova comunidade totalmente experimental.

Como você faria um culto de domingo, buscando a celebração e a edificação e a adoração, mas sem música e mensagem (pois essa comunidade ouviria todos os dias músicas gravadas e mensagens pregadas por vários dos seus membros e disponibilizadas na internet)? Como seria essa comunidade?