Trabalhador

Por Gilberto Jr, dia 22/08/2008. Um Comentário

Ontem no começo do dia eu tinha muito trabalho atrasado. Eu fiz uma enorme lista de tarefas, olhei para a lista e disse a mim mesmo: eu vou fazer isso tudo hoje. Bem, eu não consegui fazer aquilo tudo, mas depois de umas 20 horas de trabalho, fiz o suficiente para garantir que foi um dos dias mais produtivos em muitas semanas.

Eu trabalho em casa e faço meu horário, são benefícios que eu gosto muito, mas tenho muitos amigos que acordam cedo todos os dias e trabalham até certo horário. As vezes eu me pergunto: porque eu faço isso? Tenho certeza de que assim como eu você já sentiu que sua vida era vazia, que acordar cedo todos os dias e trabalhar arduamente não fazia sentido nenhum.

Na Bíblia, o livro dos Salmos é um livro de poemas judeus. Um deles, o 127, foi escrito por Salomão, filho de Davi, o terceiro rei de Israel. A bíblia o descreve como um homem que tinha sabedoria, poder e riqueza como nenhum outro em sua época.

Neste Salmo, Salomão reflete uma angústia que é também a nossa: “Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção. Se não é o Senhor que vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda. Será inútil levantar cedo e dormir tarde, trabalhando arduamente por alimento”.

Eu não acredito que Salomão esteja dizendo que não adianta construir casas, melhor é esperar que Deus construa, ou que não adiantar vigiar a cidade, melhor deixa-la sem vigia e esperar que Deus a vigie.

No mundo dos homens, Deus escolheu agir através dos homens. Quando estamos seguindo a Cristo, é Deus que faz o trabalho através de nós. Acordar todos os dias passa a fazer sentido. Seguir a Cristo não é somente ir à igreja ou realizar trabalhos eclesiásticos, todo trabalho que fazemos, absolutamente tudo, devemos fazer seguindo a Cristo.

Meu irmão é recepcionista em um posto de saúde. Quando ele atende bem a um paciente, ele está seguindo a Cristo, ele está ajudando as pessoas. Deus é que está atendendo, construindo, vigiando, através de nós. Deus quer ser o “peão” em nós.

Mas Salomão diz também outra coisa. Em Eclesiastes 4, falando essencialmente sobre trabalho e as recompensas do trabalho, ele diz: “Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console. Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!”

Milhões de pessoas não podem ter alegria nenhuma em seu trabalho, pois depois de passar o mês todo acordando de madrugada e trabalhando arduamente, o dinheiro que recebem mal dá para comer. Todos os meses o custo da comida e das coisas sobe, mas seu salário não. O risco de ficar desempregado é constante, e muitos dos seus amigos não têm trabalho, de modo que, mesmo vivendo em condições muito precárias, ele se vê obrigado a dar graças a Deus pela vida miserável que tem, porque mal e mal pode dar o leite para os filhos.

No mundo dos homens, Deus escolheu agir através dos homens. Precisamos ir além do nosso trabalho do dia a dia e lutar por um mínimo de dignidade para todos os homens: trabalho e salário dignos para todos.

Nosso Deus é um Deus que quer construir casas e vigiar cidades através de nós, mas ele não pára por aí: ele também quer liberdar os oprimidos.

Barro

Quando eu estudei para ser designer, freqüentava aulas de todo tipo de técnica artística. Uma delas foi escultura. Me lembro particularmente de quando aprendemos a modelar argila. A brincadeira era escolher uma concha e fazer uma igual, de barro.

Quando tiramos a argila do saco na qual ela vem quando compramos, ela está úmida, mas meio dura. É preciso um pouco de trabalho, amassar com água, para amacia-la e deixa-la no ponto para modelar.

Na época dos profetas já existiam técnicas para modelar o barro. Em Isaías 64.8, lemos o povo de Israel clamando: “Contudo, Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tudo és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.”

A preocupação do povo neste momento era com seus pecados constantes, e o sentimento de que não podiam ser perfeitos: v.5 “Vens ajudar aqueles que praticam a justiça com alegria, que se lembram de ti e dos teus caminhos. Mas, prosseguindo nós em nossos pecados, tu te iraste. Como, então, seremos salvos?”

A angústia do povo de Israel é a nossa angústia: a nossa natureza pecaminosa, nossa limitação humana, nos mostra o tempo todo que não somos perfeitos. E algo dentro de nós diz que devemos ser perfeitos.

No entanto, é preciso pensar o que é perfeição. Na lógica formal dos gregos, a perfeição é uma condição estática. Algo perfeito não pode mudar, porque se muda para melhor não era perfeito, se muda para pior deixa de ser perfeito. Na cultura grega ser perfeito é não ter nenhum defeito, mas a Bíblia oferece outra visão de perfeição. Na cultura semita, ser perfeito é ser igual a Deus, e Deus é amor.

O profeta Jeremias também teve sua experiência com o barro, como podemos ler em Jeremias 18: “Fui à casa do oleiro, e o vi trabalhando com a roda. Mas o vaso de barro que ele estava formando estragou-se em suas mãos; e ele o refez, moldando outro vaso de acordo com a sua vontade.”

Realmente, na minha experiência escolar com a modelagem de argila, vi que modelar o barro para fazer dele o que queremos não é fácil, a concha que eu fiz ficou bem esquisita, mas é preciso sempre molhar as mãos, continuar mexendo no barro, mantê-lo úmido, porque depois que ele seca, não há mais nada a fazer. No entanto, enquanto ele está maleável basta um toque… O menor toque é suficiente para mudar sua forma.

A busca por uma perfeição sem defeitos pode conduzir a uma vida seca, estática, que não muda. Mas a perfeição cristã é criativa e dinâmica. É seguir a Cristo deixando-nos tocar por ele, deixando-nos tocar pelo seu amor. Deixando-nos tocar pelas pessoas ao nosso redor, pelas pessoas que vemos na rua, pelas críticas dos nossos familiares, pelos conselhos dos nossos amigos, pelas pessoas que precisam de ajuda, pelos que sofrem.

Precisamos deixar-nos tocar pelo toque interior do Espírito Santo, que nos conduz a seguir a Cristo. Precisamos aprender que não podemos ser perfeitos, mas podemos nos deixar tocar, podemos amar as pessoas.

Então poderemos ouvir o que o Pai tem a nos dizer, o que Ele diz em Jeremias 18.6: “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos”

Deus dá sentido para a sua história

Por Gilberto Jr, dia 12/08/2008.

O capítulo 4 do evangelho de João narra uma conversa entre Jesus e uma mulher samaritana. Era meio dia, Jesus estava passando por Samaria, no meio de uma longa caminhada entre a Judéia e a Galiéia. Parou no poço de Jacó, na cidade de Sicar. Ele tinha sede e pediu água à mulher.

A resposta da mulher ao pedido de Jesus não foi fazer imediatamente o que ele pediu. Sua resposta foi contar sua história. Não da maneira como aprendemos da escola que se conta uma história, com começo meio e fim, com acontecimentos encadeados, mas em uma expressão curta: “Como o senhor sendo judeu pede água a mim, uma samaritana?”

Assim ela contou a história de uma mulher que vivia numa sociedade machista e preconceituosa. O versículo 9 diz, literalmente, que “os judeus não usam pratos que os samaritanos usaram”.

Ela contava sua história. A história de uma mulher que viveu muitas dificuldades, tendo tido vários maridos diferentes possivelmente por ter sido rejeitada e abandonada por eles, tendo sentido na pele muitas vezes o nojo que os judeus sentiam pelos samaritanos, e ainda mais por ela, sendo mulher.

Deus conhece a nossa vida melhor do que nós mesmos. Mas quando contamos a Ele a nossa história, ele dá sentido a ela. Ele dá significado e direção à nossa história.

Jesus mostrou à mulher que embora ela fosse uma coisa sem valor para os judeus, era ali uma mulher a quem o próprio Messias estava pronto a servir com a água da vida. Mostrou que, embora não conhecesse a Deus como os judeus, ela estava apta a adora-lo em espírito e em verdade.

Sua história não mudou, mas ganhou outro significado e sua vida tomou outro rumo.

Quando eu conto a Deus as minhas muitas histórias, o que tenho passado nas mais diversas circunstâncias da minha vida, nem sempre ele resolve o problema com uma mágica, mas sempre faz o milagre de dar sentido à minha vida.

Aprendi que orar não é pedir coisas a Deus, mas é contar a Ele a minha história e esperar que Ele responda, mudando aquilo que eu penso e aquilo que eu sinto sobre ela, e dando direção para prosseguir.

Unidade na (prática e) Diversidade (na teologia.)

Por Gilberto Jr, dia 30/07/2008. Um Comentário

Nós, os cristãos de tradição protestante, acreditamos na Bíblia como sendo uma maneira pela qual Deus se revela ao homem. Mas quem garante que a Bíblia é a revelação de Deus? A própria Bíblia. A Bíblia é, portanto, uma narrativa auto-legitimadora.

A teologia não é a Bíblia. A teologia é outra coisa. É um estudo de Deus. Um estudo racional. Um estudo que aparece na maioria das tradições mais representativas do cristianismo de forma sistemática.

Mas a bíblia não revela Deus de maneira científica, nem sistemática, mas narrativa. No entanto, de acordo com o filósofo francês Jean-François Lyotard, a ciência não aceita que uma narrativa dê legitimidade a si mesma, como a Bíblia faz. A ciência chama isso de superstição, ideologia, preconceito, barbárie…

A teologia sistemática, no entanto, utiliza-se das ferramentas da ciência e da lógica para estudar Deus. E da mesma maneira que a Ciência parece ter falhado na sua tentativa de libertar o ser humano e trazer uma vida perfeita a todos, a teologia parece também ter falhado na sua tentativa de explicar totalmente quem é Deus e suas relações com o homem.

A partir do instante em que os cristãos pensadores tentaram formular uma doutrina escrita, um texto que explique e unifique toda a fé cristã, começaram as brigas e as divisões.

A guerra de séculos para definir se a trindade é composta de três pessoas ou três substâncias ou três pessoas de mesma substância ou três substâncias na mesma pessoa… Essa confusão só mostra os limites da linguagem, que não é capaz de explicar satisfatoriamente a trindade, não por esta ser um mistério absolutamente inexplicável (porque neste caso não poderíamos ter nem uma mera idéia de que ela exista, quanto mais poderíamos tentar definir o que é), mas porque a linguagem do texto escrito não é capaz de defini-la.

Quando lemos, no entanto, na narrativa bíblica, Deus criando a natureza, Deus encarnando e vivendo entre nós, Deus enchendo e inspirando os discípulos, Deus voltando e restaurando tudo em si… Por mais que não possamos explicar com palavras, podemos sentir bem o que é aquilo que a igreja dos primeiros séculos - e não a bíblia - chamaram de “trindade”.

Ser cristão não é aceitar ou acreditar nos dogmas que a teologia sistemática inventou. É seguir a Cristo e viver como Ele nos revela que devemos viver - e não simplesmente conforme as regras que as instituições religiosas inventam.

A teologia sistemática pretende pegar tudo que Cristo ensinou e colocar em caixinhas como “doutrina da salvação”, “doutrina do pecado”, “doutrina do fim dos tempos”… Mas a vida de Cristo, que nós devemos seguir na nossa prática diária, não foi a de ensinar essas matérias, mas a de relacionar-se com as pessoas e sinalizar o Reino de Deus através do amor, transformando o mundo.

As tentativas de sistematizar a Revelação são úteis em certo aspecto. Mas são também perigosas quando supõem que podem abarcar toda a revelação. Isso porque, embora Deus seja um só, Ele se revela de maneira diferente para povos diferentes e pessoas diferentes. Quando a teologia tenta unificar, centralizar, subordinar e sistematizar toda a revelação, empobrece a unidade na diversidade que existe na Palavra.

Viver de maneira a seguir os passos de Cristo é mais importante do que aceitar determinada doutrina. Poder viver de diversas formas diferentes tendo por base uma mesma narrativa é muito mais rico, natural e inteligente do que criar sistemas e instituições guardiões da verdade universal e absoluta.

A verdade não é um sistema teológico, nem um punhado de doutrinas, a verdade é Cristo. Podemos conhecer a verdade que Cristo é através das narrativas das pessoas que viveram com ele - e estas oferecem visões bem diversas dos mesmos fatos. Podemos conhecê-lo também através de práticas espirituais e da sua criação. Mas muito mais importante do que nossas controvérsias em busca de um consenso universal sobre quem Ele é e como devemos segui-lo é a nossa caminhada seguindo seus passos.

Enquanto brigamos pelo número de anjos que cabem na cabeça de uma agulha, o mundo ao nosso redor caminha para a barbárie, para a favelização, para a ruína moral, estética política, econômica, social, cultural…

Deus não está preocupado com a maneira como sistematizamos o conhecimento dEle, mas com a maneira como vivemos uns com os outros.

A liberdade é coletiva

Jesus Cristo disse: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. De acordo com a narrativa de João ele disse isso no plural. Talvez não tenha sido à toa.

A nossa linguagem não dá conta de explicar a verdade. Talvez por isso Jesus não tenha escrito nada.

Ao interpretar isso que Jesus disse, alguém poderia dizer: cada um de nós conhecerá a verdade e a verdade libertará a cada um na medida que cada um individualmente for conhecendo a verdade.

Outra pessoa, ao interpretar a mesma passagem, poderia dizer: Quando todos coletivamente conhecerem a verdade, a verdade libertará a todos.

Não sei qual das duas alternativas é a que mais se aproxima da verdade. Mas eu creio firmemente que nada no cristianismo é individual.

A verdade, no cristianismo, não é uma abstração metanarrativa filosófica, mas uma pessoa: Jesus Cristo. Ele veio ao mundo para proclamar uma mensagem: o Reino de Deus chegou!

A liberdade é “uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”. Não pretendo definir a Liberdade. Mas quando pensamos em termos mais materiais sobre a Liberdade e pensamos sobre o que será o Reino de Deus, penso que a Liberdade do ser humano só virá realmente no Reino de Deus.

Gostaria de copiar aqui a citação que uma amiga, Mei Hua, fez em um texto, falando sobre Liberdade. As palavras são de Mário Sérgio Cortella:

Ser humano é ser junto. É necessário negar a afirmação liberticida de que “a minha liberdade acaba quando começa a do outro”. A minha liberdade acaba quando acaba a do outro; se algum humano ou humana não é livre, ninguém é livre. Se alguém não for livre da fome, ninguém é livre da fome. Se algum homem ou mulher não for livre da discriminação, ninguém é livre da discriminação. Se alguma criança não for livre da falta de escola, de família, de lazer, ninguém é livre.

O Reino de Deus ainda não está aqui, mas sinalizamos que ele já chegou. Da mesma maneira a liberdade com a qual Jesus nos libertou ainda não está aqui, mas mostramos a todos que ela já chegou quando sinalizamos o Reino de Deus através da transformação coletiva do mundo, buscando justiça.

Quando Cristo diz que “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, duvido que ele tenha pretendido dizer que quando uma pessoa individualmente passa a acreditar em Jesus e em certas doutrinas, esta pessoa passa a ser livre.

Penso que Jesus comissionou-nos a todos para a missão de sinalizar o Reino de Deus e assim caminhamos o caminho da liberdade. Este é um caminho duro e difícil, que exige que caminhemos juntos, crendo com esperança, fé e coragem que estamos avançando, mas também com a visão realista de que ainda estamos bem longe de chegar lá.

A tranquilidade de quem pensa que por ser cristão já é plenamente livre me assusta. Enquanto não percebermos que há bilhões de pessoas oprimidas no mundo… Enquanto não partirmos para a luta pela libertação destas pessoas… Enquanto não começarmos de fato a sinalizar o Reino de Deus onde todos serão finalmente livres de todo o pecado e de toda a injustiça… Enquanto não vivermos um cristianismo mais consciente do que acontece ao nosso redor… não estaremos vendo o mundo com os olhos da verdade: os olhos de Cristo.