A benção e a maldição da Cruz

Por Gilberto Jr, dia 3/09/2008. Um Comentário

Quando eu era adolescente eu usava um colar com uma pequena cruz de metal como pingente. Eu sempre gostei de carregar coisas físicas que me lembrassem de olhar para Deus. Nesta época, seguindo a tradição evangélica de não gostar de nenhum tipo de imagem ou símbolo, principalmente os que lembram a igreja católica, alguns amigos achavam muito estranho eu usar aquilo - o que era mais um motivo para eu usar - diziam que é um sinal de maldição.

É verdade, a Bíblia declara que aquele que é pendurado numa cruz é maldito. Mas a Bíblia também declara que a cruz é uma benção, pois foi através da morte de Jesus na Cruz que somos justificados.

Cristo ordenou que aquele que quiser segui-lo deve tomar sobre si sua cruz. O que ele quer dizer? Esta cruz é benção ou maldição? As duas coisas.

É maldição, porque na época em que Cristo vivia, todo aquele que carregasse uma cruz sobre si era alguém sem honra, um marginal, alguém que não vale nada. Quando seguimos a Cristo, nossos valores e nossos princípios tornam-se diferentes, então somos vistos como malditos.

Somos vistos pelo mundo como malditos quando deixamos de ganhar mais dinheiro com aquele jeitinho… Quando deixamos de tirar proveito em determinadas situações…

Mas a cruz também é benção porque o Sangue de Cristo vertido na Cruz nos purifica de todo o pecado. É olhando para a cruz todos os dias, e carregando sobre si nossa própria cruz, que podemos suportar continuar convivendo com a nossa natureza pecaminosa.

Jesus não disse somente para carregarmos a cruz, mas para negarmos a nós mesmos. Essa é a imagem da cruz: a negação de si mesmo, enquanto o mundo afirma que nada é mais importante do que “a si mesmo”. “Se eu sou feliz assim, não há nada de errado nisso”, dizem.

Mas Cristo vai além, através do imperativo do Amor, ao seguirmos a Cristo negamo-nos a nós mesmos e afirmamos o outro. Deixamos de buscar a nossa felicidade em primeiro lugar e buscamos a felicidade do próximo. Assim, quando encontramos o outro, reencontramos a nós mesmos de outra maneira, de uma maneira mais profunda e encontramos a Deus.

No “mundo” o eu é afirmado. Na cruz o eu é negado. No amor acontece a síntese, a negação da negação. Desta maneira, eu reencontro o sentido da minha vida ao buscar o melhor para a vida do próximo, reencontro a minha felicidade ao procurar a felicidade para o outro. Quem quiser salvar sua vida, vai perdê-la, e quem quiser perder sua vida vai salvá-la.

Cristo nos trouxe a salvação. Ele não nos salvará somente no futuro, depois da nossa morte, Ele já nos salvou! Quando seguimos a Cristo, a cruz é uma realidade no dia-a-dia. É porque estamos salvos que podemos levar benção para o mundo que nos vê como malditos.

Quando adolescente, eu não me importava que meus amigos disessem que eu estava errado por carregar uma cruz de metal no peito… Hoje eu não me importo de carregar a minha cruz e seguir a Cristo, haja o que houver.

Além disso, negar a mim mesmo, carregar a minha cruz e seguir a Cristo significa estar ao lado daqueles que neste mundo são malditos, excluídos, marginalizados, oprimidos, e lutar pela sua libertação.

Carregar uma cruz no peito era muito fácil. Carregar a Cruz do evangelho integral de Cristo para onde quer que eu vá é muito mais difícil.

Ser importante não é importante

Por Gilberto Jr, dia 25/08/2008. Um Comentário

Seja na minha profissão, no teatro ou na música, seja como escritor e até mesmo quando estou com meus amigos mais íntimos, às vezes eu me pego falando ou agindo como se fosse alguém importante, querendo parecer importante. Eu já fui bem pior nisso, acho que, com a graça de Deus, estou melhorando. Tenho certeza de que você já se pegou fazendo (ou deixando de fazer) algo só para parecer importante.

Nós vivemos numa sociedade que vive numa competição doentia. É como se estivéssemos em olimpíadas permanentes: num ambiente no qual todo mundo precisa ser melhor do que todos, sempre. Todo mundo sente-se obrigado a ganhar o ouro ou amargar na tristeza da derrota.

Para seguir a Jesus Cristo é preciso olhar para ele. Quão bem-aventurados foram aqueles que puderam vê-lo em carne e osso aqui na terra! Nós não podemos fazer isso, mas podemos ler o que aqueles que o viram e tocaram narraram sobre o Cristo.

Todos esperavam do Messias um rei conquistador, que trouxesse a vingança de Deus sobre todos os povos. Esperavam um homem poderoso e cheio de majestade e glória. Todos esperavam que o Messias fosse alguém muito importante. Mas para a decepção de muitos, ele não veio assim.

Em sua carta aos filipenses, Paulo diz que Cristo “embora existindo na forma de Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de escravo, tornando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai”.

Não podemos ver a Cristo, mas podemos imaginá-lo. Ele não parecia ser alguém importante. Não havia uma aureola brilhante sobre sua cabeça. Ele não se vestia de maneira diferente dos seus discípulos e do povo ao seu redor. Ele parecia-se com um servo; com alguém que veio de uma vilinha minúscula na periferia, de um lugar de onde não se espera que venha nada importante.

Às vezes nós temos a impressão de que se formos importantes todo mundo vai gostar da gente. Mas as pessoas não amam pessoas importantes, as pessoas invejam ou idolatram pessoas importantes.

Ser importante não é importante. Parece um clichêzão dos mais batidos, mas o importante é amar as pessoas. Se seguimos a Cristo, que viveu entre os homens simples como um homem simples, devemos buscar viver como ele. E assim como ele fez, devemos estar ao lado daqueles que não são importantes e lutar ao lado deles.

Nosso motivo para trabalhar, não pode ser para construir uma carreira de sucesso e nos tornarmos pessoas importantes, invejadas e idolatradas. Nosso motivo para acordar todas as manhãs e trabalhar é ajudar as pessoas, ajudar a construir um mundo melhor, lutar por aqueles que sofrem, viver como Cristo viveu.

Trabalhador

Por Gilberto Jr, dia 22/08/2008. Um Comentário

Ontem no começo do dia eu tinha muito trabalho atrasado. Eu fiz uma enorme lista de tarefas, olhei para a lista e disse a mim mesmo: eu vou fazer isso tudo hoje. Bem, eu não consegui fazer aquilo tudo, mas depois de umas 20 horas de trabalho, fiz o suficiente para garantir que foi um dos dias mais produtivos em muitas semanas.

Eu trabalho em casa e faço meu horário, são benefícios que eu gosto muito, mas tenho muitos amigos que acordam cedo todos os dias e trabalham até certo horário. As vezes eu me pergunto: porque eu faço isso? Tenho certeza de que assim como eu você já sentiu que sua vida era vazia, que acordar cedo todos os dias e trabalhar arduamente não fazia sentido nenhum.

Na Bíblia, o livro dos Salmos é um livro de poemas judeus. Um deles, o 127, foi escrito por Salomão, filho de Davi, o terceiro rei de Israel. A bíblia o descreve como um homem que tinha sabedoria, poder e riqueza como nenhum outro em sua época.

Neste Salmo, Salomão reflete uma angústia que é também a nossa: “Se não for o Senhor o construtor da casa, será inútil trabalhar na construção. Se não é o Senhor que vigia a cidade, será inútil a sentinela montar guarda. Será inútil levantar cedo e dormir tarde, trabalhando arduamente por alimento”.

Eu não acredito que Salomão esteja dizendo que não adianta construir casas, melhor é esperar que Deus construa, ou que não adiantar vigiar a cidade, melhor deixa-la sem vigia e esperar que Deus a vigie.

No mundo dos homens, Deus escolheu agir através dos homens. Quando estamos seguindo a Cristo, é Deus que faz o trabalho através de nós. Acordar todos os dias passa a fazer sentido. Seguir a Cristo não é somente ir à igreja ou realizar trabalhos eclesiásticos, todo trabalho que fazemos, absolutamente tudo, devemos fazer seguindo a Cristo.

Meu irmão é recepcionista em um posto de saúde. Quando ele atende bem a um paciente, ele está seguindo a Cristo, ele está ajudando as pessoas. Deus é que está atendendo, construindo, vigiando, através de nós. Deus quer ser o “peão” em nós.

Mas Salomão diz também outra coisa. Em Eclesiastes 4, falando essencialmente sobre trabalho e as recompensas do trabalho, ele diz: “Vi as lágrimas dos oprimidos, mas não há quem os console; o poder está do lado dos seus opressores, e não há quem os console. Por isso considerei os mortos mais felizes do que os vivos, pois estes ainda têm que viver!”

Milhões de pessoas não podem ter alegria nenhuma em seu trabalho, pois depois de passar o mês todo acordando de madrugada e trabalhando arduamente, o dinheiro que recebem mal dá para comer. Todos os meses o custo da comida e das coisas sobe, mas seu salário não. O risco de ficar desempregado é constante, e muitos dos seus amigos não têm trabalho, de modo que, mesmo vivendo em condições muito precárias, ele se vê obrigado a dar graças a Deus pela vida miserável que tem, porque mal e mal pode dar o leite para os filhos.

No mundo dos homens, Deus escolheu agir através dos homens. Precisamos ir além do nosso trabalho do dia a dia e lutar por um mínimo de dignidade para todos os homens: trabalho e salário dignos para todos.

Nosso Deus é um Deus que quer construir casas e vigiar cidades através de nós, mas ele não pára por aí: ele também quer liberdar os oprimidos.

Barro

Quando eu estudei para ser designer, freqüentava aulas de todo tipo de técnica artística. Uma delas foi escultura. Me lembro particularmente de quando aprendemos a modelar argila. A brincadeira era escolher uma concha e fazer uma igual, de barro.

Quando tiramos a argila do saco na qual ela vem quando compramos, ela está úmida, mas meio dura. É preciso um pouco de trabalho, amassar com água, para amacia-la e deixa-la no ponto para modelar.

Na época dos profetas já existiam técnicas para modelar o barro. Em Isaías 64.8, lemos o povo de Israel clamando: “Contudo, Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tudo és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.”

A preocupação do povo neste momento era com seus pecados constantes, e o sentimento de que não podiam ser perfeitos: v.5 “Vens ajudar aqueles que praticam a justiça com alegria, que se lembram de ti e dos teus caminhos. Mas, prosseguindo nós em nossos pecados, tu te iraste. Como, então, seremos salvos?”

A angústia do povo de Israel é a nossa angústia: a nossa natureza pecaminosa, nossa limitação humana, nos mostra o tempo todo que não somos perfeitos. E algo dentro de nós diz que devemos ser perfeitos.

No entanto, é preciso pensar o que é perfeição. Na lógica formal dos gregos, a perfeição é uma condição estática. Algo perfeito não pode mudar, porque se muda para melhor não era perfeito, se muda para pior deixa de ser perfeito. Na cultura grega ser perfeito é não ter nenhum defeito, mas a Bíblia oferece outra visão de perfeição. Na cultura semita, ser perfeito é ser igual a Deus, e Deus é amor.

O profeta Jeremias também teve sua experiência com o barro, como podemos ler em Jeremias 18: “Fui à casa do oleiro, e o vi trabalhando com a roda. Mas o vaso de barro que ele estava formando estragou-se em suas mãos; e ele o refez, moldando outro vaso de acordo com a sua vontade.”

Realmente, na minha experiência escolar com a modelagem de argila, vi que modelar o barro para fazer dele o que queremos não é fácil, a concha que eu fiz ficou bem esquisita, mas é preciso sempre molhar as mãos, continuar mexendo no barro, mantê-lo úmido, porque depois que ele seca, não há mais nada a fazer. No entanto, enquanto ele está maleável basta um toque… O menor toque é suficiente para mudar sua forma.

A busca por uma perfeição sem defeitos pode conduzir a uma vida seca, estática, que não muda. Mas a perfeição cristã é criativa e dinâmica. É seguir a Cristo deixando-nos tocar por ele, deixando-nos tocar pelo seu amor. Deixando-nos tocar pelas pessoas ao nosso redor, pelas pessoas que vemos na rua, pelas críticas dos nossos familiares, pelos conselhos dos nossos amigos, pelas pessoas que precisam de ajuda, pelos que sofrem.

Precisamos deixar-nos tocar pelo toque interior do Espírito Santo, que nos conduz a seguir a Cristo. Precisamos aprender que não podemos ser perfeitos, mas podemos nos deixar tocar, podemos amar as pessoas.

Então poderemos ouvir o que o Pai tem a nos dizer, o que Ele diz em Jeremias 18.6: “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos”

Deus dá sentido para a sua história

Por Gilberto Jr, dia 12/08/2008.

O capítulo 4 do evangelho de João narra uma conversa entre Jesus e uma mulher samaritana. Era meio dia, Jesus estava passando por Samaria, no meio de uma longa caminhada entre a Judéia e a Galiéia. Parou no poço de Jacó, na cidade de Sicar. Ele tinha sede e pediu água à mulher.

A resposta da mulher ao pedido de Jesus não foi fazer imediatamente o que ele pediu. Sua resposta foi contar sua história. Não da maneira como aprendemos da escola que se conta uma história, com começo meio e fim, com acontecimentos encadeados, mas em uma expressão curta: “Como o senhor sendo judeu pede água a mim, uma samaritana?”

Assim ela contou a história de uma mulher que vivia numa sociedade machista e preconceituosa. O versículo 9 diz, literalmente, que “os judeus não usam pratos que os samaritanos usaram”.

Ela contava sua história. A história de uma mulher que viveu muitas dificuldades, tendo tido vários maridos diferentes possivelmente por ter sido rejeitada e abandonada por eles, tendo sentido na pele muitas vezes o nojo que os judeus sentiam pelos samaritanos, e ainda mais por ela, sendo mulher.

Deus conhece a nossa vida melhor do que nós mesmos. Mas quando contamos a Ele a nossa história, ele dá sentido a ela. Ele dá significado e direção à nossa história.

Jesus mostrou à mulher que embora ela fosse uma coisa sem valor para os judeus, era ali uma mulher a quem o próprio Messias estava pronto a servir com a água da vida. Mostrou que, embora não conhecesse a Deus como os judeus, ela estava apta a adora-lo em espírito e em verdade.

Sua história não mudou, mas ganhou outro significado e sua vida tomou outro rumo.

Quando eu conto a Deus as minhas muitas histórias, o que tenho passado nas mais diversas circunstâncias da minha vida, nem sempre ele resolve o problema com uma mágica, mas sempre faz o milagre de dar sentido à minha vida.

Aprendi que orar não é pedir coisas a Deus, mas é contar a Ele a minha história e esperar que Ele responda, mudando aquilo que eu penso e aquilo que eu sinto sobre ela, e dando direção para prosseguir.