Barro
Quando eu estudei para ser designer, freqüentava aulas de todo tipo de técnica artística. Uma delas foi escultura. Me lembro particularmente de quando aprendemos a modelar argila. A brincadeira era escolher uma concha e fazer uma igual, de barro.
Quando tiramos a argila do saco na qual ela vem quando compramos, ela está úmida, mas meio dura. É preciso um pouco de trabalho, amassar com água, para amacia-la e deixa-la no ponto para modelar.
Na época dos profetas já existiam técnicas para modelar o barro. Em Isaías 64.8, lemos o povo de Israel clamando: “Contudo, Senhor, tu és o nosso Pai. Nós somos o barro; tudo és o oleiro. Todos nós somos obra das tuas mãos.”
A preocupação do povo neste momento era com seus pecados constantes, e o sentimento de que não podiam ser perfeitos: v.5 “Vens ajudar aqueles que praticam a justiça com alegria, que se lembram de ti e dos teus caminhos. Mas, prosseguindo nós em nossos pecados, tu te iraste. Como, então, seremos salvos?”
A angústia do povo de Israel é a nossa angústia: a nossa natureza pecaminosa, nossa limitação humana, nos mostra o tempo todo que não somos perfeitos. E algo dentro de nós diz que devemos ser perfeitos.
No entanto, é preciso pensar o que é perfeição. Na lógica formal dos gregos, a perfeição é uma condição estática. Algo perfeito não pode mudar, porque se muda para melhor não era perfeito, se muda para pior deixa de ser perfeito. Na cultura grega ser perfeito é não ter nenhum defeito, mas a Bíblia oferece outra visão de perfeição. Na cultura semita, ser perfeito é ser igual a Deus, e Deus é amor.
O profeta Jeremias também teve sua experiência com o barro, como podemos ler em Jeremias 18: “Fui à casa do oleiro, e o vi trabalhando com a roda. Mas o vaso de barro que ele estava formando estragou-se em suas mãos; e ele o refez, moldando outro vaso de acordo com a sua vontade.”
Realmente, na minha experiência escolar com a modelagem de argila, vi que modelar o barro para fazer dele o que queremos não é fácil, a concha que eu fiz ficou bem esquisita, mas é preciso sempre molhar as mãos, continuar mexendo no barro, mantê-lo úmido, porque depois que ele seca, não há mais nada a fazer. No entanto, enquanto ele está maleável basta um toque… O menor toque é suficiente para mudar sua forma.
A busca por uma perfeição sem defeitos pode conduzir a uma vida seca, estática, que não muda. Mas a perfeição cristã é criativa e dinâmica. É seguir a Cristo deixando-nos tocar por ele, deixando-nos tocar pelo seu amor. Deixando-nos tocar pelas pessoas ao nosso redor, pelas pessoas que vemos na rua, pelas críticas dos nossos familiares, pelos conselhos dos nossos amigos, pelas pessoas que precisam de ajuda, pelos que sofrem.
Precisamos deixar-nos tocar pelo toque interior do Espírito Santo, que nos conduz a seguir a Cristo. Precisamos aprender que não podemos ser perfeitos, mas podemos nos deixar tocar, podemos amar as pessoas.
Então poderemos ouvir o que o Pai tem a nos dizer, o que Ele diz em Jeremias 18.6: “Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos”


