A procura da felicidade

Por Gilberto Jr, dia 29/12/2007.

O instinto mais básico do ser humano sempre foi o da sobrevivência. Desde a pré-história encontrar meios de comer, beber e proteger-se dos perigos foi o que motivou as pessoas a se relacionarem uns com os outros e modificarem a natureza.

Além disso, ou seja, para aquela parcela da população que tem um mínimo de dignidade, há um outro nível de necessidades. Na sociedade atual há um plano claro para todas as pessoas, ou pelo menos a esmagadora maioria: estudar, arrumar o melhor emprego que puder, comprar uma boa casa e boas coisas com o dinheiro deste emprego, casar e ter filhos…

Toda nossa relação com o mundo, hoje, é pautada pelo consumo. O objetivo da vida das pessoas é aumentar seu padrão de consumo. O pobre que ir para a classe média, esta quer ficar rica, o rico quer sempre mais… Neste sistema, ser feliz é poder comprar coisas bacanas, como uma ferrari. Quem é capaz de ter uma ferrari, uma super-casa num condomínio fechado num bairro nobre, viajar para onde quiser, etc, é mais gente, mais ser humano, do que quem não é capaz de tudo isso.

No passado, minha visão de mundo já me levara a pensar diferente: o homem foi criado para adorar a Deus, portanto, ser feliz é adorar a Deus. O problema estava na prática da minha espiritualidade: “adorar a Deus” significava cantar canções em pé num prédio onde outras pessoas se reuniam para fazer o mesmo.

Essa é uma visão de mundo muito interessante porque não há nenhuma métrica que prove se o que você está fazendo está dando certo ou errado. O sujeito acredita que sua minha missão no mundo é ir à igreja, cantar e tudo mais que se faz na igreja, faz isso, portanto está fazendo tudo certo: é feliz.

Um pouco depois, quando me tornei um metodista, essa visão evoluiu um pouco: adorar a Deus significava lutar contra o pecado. Aí a coisa mudou, pois havia uma métrica clara: o pecado no dia-a-dia. Me debrucei sobre livros de hamartiologia para entender o que era “pecado”, assim poderia distinguir se pequei ou não em cada situação e no fim do dia fazer um balanço. Obviamente, havia uma frustração constante, pois eu não consegui viver permanentemente sem pecar.

Foi nesta época, há uns 7 anos, que eu vivi a “experiência do coração aquecido” da qual fala João Wesley. Esta eu conservo até este instante. Enquanto escrevo estas linhas sinto a presença de Deus como um calor quase físico no meu peito. Esse calor aumenta em momentos de devoção. Esse calor, até certo nível, é para mim a felicidade.

Mas aqui também há um problema: a minha definição de pecado era individual. Eu compreendia que o amor de Deus derramado no meu coração me levava a amar o próximo e conseqüentemente deixar de pecar. Eu não compreendia que lutar contra o pecado era uma causa muito maior do que vigiar o que eu faço ou deixo de fazer no dia-a-dia.

Ed René diz que “no cristianismo, a salvação é pessoal, a peregrinação espiritual é comunitária, e nada, absolutamente nada, é individual”. Agora eu entendo que o pecado também não pode ser somente individual, nem a luta contra o pecado e a maldade. Não posso lutar somente contra a minha maldade - que existe. Não posso lutar somente para evitar que o pior dos seres encontre o que há de pior em mim. Além disso, é preciso lutar contra o mal estrutural, contra a máquina de maldade que existe na nossa sociedade.

Leonardo Boff diz que “a voracidade da acumulação privada de riqueza distorce o sentido da vida, que o ideal capitalista é profundamente perverso porque inumano, nada solidário e alheio à qualquer comiseração para com o próximo”. Por ser profundamente individualista e anti-solidário, o capitalismo é profundamente anti-cristão.

Minha compreensão atual de felicidade é coletiva: só serei feliz quanto todos forem felizes. A procura da felicidade não pode ser a procura da minha felicidade, nem a procura da felicidade da minha família, nem da minha cidade, país, continente. É preciso buscar a felicidade universal que o Reino de Deus (que Cristo veio dizer que chegou) representa.

A prática da minha espiritualidade atualmente não pode ser mais a de ir à igreja e cantar. Nem somente a de lutar para não pecar. A prática da minha espiritualidade é o amor de Cristo sendo derramado a todas as pessoas para que encontrem uma vida materialmente digna e espiritualmente viva (falo como se fossem coisas separadas!) .

Para isso, é preciso lutar para construir coletivamente uma alternativa ao capitalismo. Uma alternativa que traga justiça, paz e liberdade. Enquanto esta alternativa não chega, todos podemos sinalizar o Reino de Deus que virá, e que já chegou, através da nossa luta diária contra o mal e a estrutura social e política maligna que escraviza, desumaniza e mata os pobres de todo canto do mundo.

Escrevo isso depois de ver o filme “A procura da felicidade”. É um filme lindo. É difícil vê-lo e não chorar com a luta de um pai para sobreviver com seu filho em uma sociedade onde tudo parece estar de ponta cabeça e todas as chances parecem ser contrárias. Mas (vou contar o fim do filme, até porque é óbvio) ele vence no final. Sua vitória é ficar rico.

Milhões de pessoas vivem na pobreza enquanto alguns vencem como este homem venceu, criando seu fundo de investimentos de risco. Vencer não é opção para todos, dependendo apenas do seu próprio esforço, como o filme nos leva a pensar. A alguns a escola não está disponível, as oportunidades não estão disponíveis, somente a miséria está disponível.

Para citar um pequeno exemplo, segundo dados nacionais do Incra, 3% das propriedades rurais do Brasil são latifúndios e ocupam 56% das áreas agricultáveis. São cerca de 50 mil propriedades com mais de mil hectares. Isso enquanto 4,8 milhões de famílias não têm um palmo de terra para plantar (Le Monde Diplomatique Brasil, edição de dez/07). Alguns milhares ficam muito ricos com suas propriedades rurais enquanto milhões passam fome no semi-árido nordestino.

A transposição do Rio São Francisco está sendo planejada especificamente para beneficiar essas propriedades já ricas, enquanto o projeto ASA Brasil, que construiu mais de 220 mil cisternas para dar água ao povo nordestino que sofre na seca, está parado por falta de repasse de recursos governamentais, devido à pressão dos setores conservadores.

No fim do filme, quando o homem consegue o emprego que o tornará um homem rico ele diz: “este momento da minha vida chama-se felicidade”. Eu penso que não. Felicidade jamais poderá ser um momento de uma pessoa. É preciso procurar a felicidade de todos, a vida é um jogo do tipo não-zero, a vitória só pode ser de todos, ou de ninguém.

Quando todos puderem comer, beber, proteger-se dos perigos como o frio e a chuva, e ter todas as suas necessidades - mesmo aquelas um pouco mais supérfluas - supridas, então poderemos dizer que estamos mais próximos deste momento histórico chamado felicidade.

Enquanto isso, fica um sentimento de frustração. Mas também a esperança e a luta.

4 Comentários

  1. certamente o tema felicidade é bem complexo e polemico o que é bem estar para mim não o é para outros mas essa linha de raciocinio é bem interessante, Deus como um pintor imaginou a nossa felicidade dentro de seus principios de vida criado para o ser humano agora deénde de cada um de nós procurar descobrir o que Deus imaginou para cada um de nós, com certesa grande parte dessa revelação estão claramente reveladas nas escrituras sagradas.

    pastor gilberto - 30/12/2007 às 9:28 am
  2. Aceito que está politicamente correto ou espiritualmente correto, enfim corretíssimo, difícil é tornar-se realidade na prática, no meu dia a dia, onde eu tenha a certeza que realmente estou fazendo algo, como ex: a menina que poderá ser uma professora está neste momento tomando um café e comendo um pão amanhecido como eu o fiz agora e não comendo farinha com agua qdo tem, sabendo que até mm a sua fisiologia já está afetada desde o ventre.

    edna - 3/01/2008 às 7:24 am
  3. Mano Gilberto, paz e bem sobre a sua linda alma sempre!

    Bom, aqui quem fala é o seu mano avivalista (neto do Wesley (rsrsrsrs)). Você diz em seu comentário que é da igreja metodista. Eu pensava que você fosse da igreja do seu tio o grande pr. Cosme. Você não é?

    Bom, se é ou não, isso não importa. Não é verdade? O importante é estar no caminho… Sim! no caminho do Rei Jesus. No caminho sinalizando o reino como diz o grande Júlio de Santana.

    Bom, apenas para endossar todas as verdades das quais já foram ditas por você; quero apenas sinalizar algo. Jesus realmente diz que a verdadeira felicidade ná ótica da reflexão em apreço é a “partilha”. Na partilha o que possui está dizendo: “Tenha como eu também tenho”.

    Sim! a partilha é a grande beleza da vida. Como eu havia comentado na mensagem passada sobre o tema da máquina de triturar homens: “Precisamos destruir a máquina do capitalismo”. Jung disse: “Não todo o capitalismo,mas, somente aquilo que está errado no capitalismo”.

    De seu sempre mano no caminho…

    Sandro

    Sandro Alves Martiniano de Souza - 4/01/2008 às 4:47 pm
  4. Oi Sandro… Sou membro da igreja batista de água branca. Me identifico com a teologia metodista, por isso me considero metodista. E o pr cosme é um grande amigo, mas não é meu tio :)

    Gilberto Jr - 4/01/2008 às 6:48 pm

Seu comentário