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A verdadeira compaixão pelos desimportantes

Por Gilberto Jr, dia 6/12/2007.

O vídeo abaixo, uma campanha publicitária da WWF (uma ONG ambientalista), tenta comunicar esta mensagem: a destruição da natureza, por causa da ganância pelo dinheiro, um dia vai voltar para destruir os poluidores.

É tonto quem pensa que os capitalistas são burros a ponto de não conseguirem prever sua auto-destruição e trabalhar para manter sua dominação e sua riqueza. Já é de praxe entre as grandes empresas americanas – e agora virou moda entre as brasileiras, incluindo bancos – ter uma preocupação e diversas ações práticas no sentido de proteger a natureza.

Se o dono de escravos deixa de se preocupar com o bem-estar de seus escravos (que são sua propriedade, sua mercadoria), se ele exagera na economia de dinheiro com comida, higiene, etc, em pouco tempo perderá a mão-de-obra que explora, e conseqüentemente sua riqueza. Da mesma maneira, a classe dominante procura elevar o padrão de vida dos pobres para poder continuar explorando-os, para conter sua revolta contra este sistema injusto.

A economia no nordeste vai muito bem, agora que os miseráveis que passavam fome estão transformando-se em consumidores. O fim da pobreza interessa ao capital, mas o capitalismo é um sistema que não consegue deixar de gerar pobreza.

Paulo Arantes chama isso de administração de pobres [1], coisa que nosso governo brasileiro sempre soube fazer muito bem. A administração de pobres é caracterizada por uma busca de melhoria nas condições de vida dos oprimidos, sem buscar a libertação total e final deles, sem buscar o fim do sistema que gera pobreza e desigualdade.

Como disseram Michael Löwy [2] e Francisco de Oliveira, o capitalismo não vai morrer de morte natural, ele precisa ser assassinado.

Mas não haverá libertação enquanto nós formos individualistas, enquanto o meu bem-estar – e o da minha família – estiver acima de qualquer outra coisa e da comunidade como um todo. Para acabar com a injustiça de uma vez por todas é preciso compaixão.

Sobre isso, diz Jung Mo Sung:

Quando sentimos a compaixão, desejamos que os sofrimentos das outras pessoas cessem, não só porque as amamos ou acreditamos que elas têm direito a uma vida mais digna e humana, mas também para que os nossos sofrimentos resultantes da compaixão sejam aliviados. Neste processo sentimo-nos compelidos a fazer algo para mudar a situação, assim como também incluímos no nosso horizonte de futuro desejado a superação das situações que causam estes sofrimentos. Abertura ao sofrimento alheio que nos permite tomar contato com os nossos sofrimentos e medos, a esperança de um futuro onde estes problemas foram solucionados e ações concretas que nos dão convicção firme de que estamos, dentro das possibilidades, fazendo a coisa certa para caminharmos em direção a este futuro desejado são elementos fundamentais de uma vida feliz.

Somente uma sociedade comprometida com o fim do sofrimento do próximo – que também nos causa sofrimento – pode libertar o povo oprimido. É nosso trabalho agir na história, sinalizando o Reino de Deus. Jesus Cristo, Deus encarnado, não veio parecendo ser um Deus, mas em forma de servo.

Sobre isso, diz Frei Beto:

Quem esperamos? Um jovem “maluco” oriundo de uma localidade insignificante ou o Deus Salvador? A resposta é simples: basta olhar em volta e indagar-nos que importância damos aos atuais “nazarenos”: sem-terra e sem-teto, oprimidos e encarcerados, funcionários subalternos e pessoas destituídas de valor agregado. Segundo Mateus 25, 31-46, é neles que Jesus quer ser reconhecido, servido e amado. É por eles que Deus Salvador entra em nossas vidas.

A verdadeira compaixão pelos desimportantes não é demonstrada em ações que não fazem nada além de manter uma sociedade na qual a riqueza está concentrada em pouquíssimas mãos poderosas e a miséria é atenuada somente para gerar mais riqueza para os ricos. A verdadeira compaixão pelos desimportantes, sinalizar o Reino de Deus, é lutar pelo fim da injustiça.

Sobre isso, o Pr. Cosme me contou uma metáfora interessante outro dia: Na época da escravidão, havia aqueles que juntavam dinheiro para comprar escravos e depois os libertavam; havia aqueles que davam água e comida para escravos que estavam sendo punidos; e havia aqueles que lutavam pelo fim da escravidão.

[1] Em encontro com Paulo Arantes sobre a tradição da crítica brasileira e o Teatro de Grupo, organizado pelo Grupo Folias – 06/08/2007

[2] Em mesa redonda sobre “A atualidade da Revolução Russa” na USP – 18/10/2007

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