Entre homens, ratos e porcos.
Um rato de esgoto é um rato de esgoto enquanto zanza pelos cantos, rói coisas, come restos urbanos de porcarias. Um porco é um porco enquanto faz também suas porcarias. Um homem é um homem enquanto…
O que difere um homem de um rato ou um porco?
Há muito, muito tempo atrás, antes do homem desenvolver tecnologias essenciais como a roda, o fogo, a agricultura ou a domesticação de animais, qual era a diferença entre ele e um outro animal qualquer?
Fato é que ele se diferenciou aprendendo a transformar a natureza.
De uma pedra e pau, fez um machado. Inovação tecnológica. Com o machado, fez uma casa tosca, de madeiras empilhadas. Achou lindo ver a sua realização. Viu-se a si mesmo na casa, o fruto do seu trabalho, aquilo que ele é. Antes do machado era o homem que achava quase impossível fazer uma casa, depois, o homem que acha fácil fazer uma casa. A casa transformou o homem. E o ciclo de inovações tecnológicas continuou evoluindo em novas ferramentas, novos conhecimentos e novas maneiras de se transformar a natureza.
Quando o Homem deixa de ser Homem.
Como qualquer boa história, depois de um trecho bonito vem um trecho um pouco mais sombrio. Melhor, um desafio.
O homem que fazia ferramentas, transformava a natureza e era transformado sempre para melhor pelo seu trabalho aprendeu a fazer de outros homens ferramentas. Neste momento, uma pessoa já não faz uma coisa. Uma pessoa trabalha para uma empresa. A empresa é que faz coisas.
O homem deixou de ser homem no instante em que já não se vê no seu trabalho - pois não é o seu trabalho, mas o trabalho de outra pessoa (o dono da empresa) feito por ele. Não é o meu martelo, é o martelo da empresa. Não é o meu tempo, é o tempo que eu vendi para a empresa. Não é a minha casa, é a casa da empresa de construção de casas onde, para sobreviver, eu trabalho. O apertador de parafusos já não tem mais absolutamente nada a ver com o carro que a empresa onde ele trabalha está produzindo. As pessoas se transformaram em mercadoria, uns valendo mais, outros menos.
Mas há uma salvação!
As marcas prometem que se você comprar seus produtos terá emoção, inteligência, amor, alegria, bem estar, entre tantas outras coisas que fazem de um ser humano um ser humano. O homem de hoje busca sua salvação no consumo.
Um trabalhador que mora num cortiço na periferia, não tem carro, veste-se mal, não pode ir a um restaurante com a família, cujo máximo gozo é poder ver um futebol no domingo, no sistema vigente, é menos gente do que um empresário que tem uma boa casa, um carro bacana, as melhores roupas, comidas, etc.
Idolatria.
Que nome dá a bíblia para uma relação em que um homem busca salvação em uma coisa? Acertou: Idolatria. A relação do homem de hoje com o mercado é uma relação idólatra. Não é difícil encontrar frases, saídas da boca de executivos e economistas como “Temos fé no mercado brasileiro. O Brasil é um gigante adormecido e queremos estar prontos para quando ele acordar”.
Fé no mercado. Consumo. Idolatria.
Este sistema, além de idólatra - ou melhor, porque é idólatra - gera injustiça, pobreza, miséria e sofrimento. A maioria dos brasileiros são considerados incompetentes pelo mercado, não tiveram a chance sequer de ter a “qualificação profissional” necessária para serem explorados e viverem com mínimas condições de sobrevivência e dignidade, na zona rural não têm direito à terra para trabalhar, não têm direito à saúde e cultura. É isso que uma sociedade idólatra produz: um povo miserável.
A salvação do ser humano: o Amor.
Há uma só salvação verdadeira para o ser humano: Cristo. Aqueles que são nascidos do mercado são mercadoria e buscam humanizar-se através do consumo. Mas aqueles que são nascidos de Cristo compartilham do amor dele pelas pessoas. Este amor é que nos faz, verdadeiramente, seres humanos.
Virá um novo Reino de Amor, que já chegou, no qual as relações entre as pessoas serão pautadas pelo amor, não pelo consumo nem pelo mercado. Neste novo reino as pessoas não serão exploradas, mas verão a si mesmos no seu trabalho - e este, para o próximo. Não haverá disputa, mas colaboração. O homem gozará em harmonia com a natureza da maneira maravilhosa que aprendeu a transformá-la para fazer este um mundo cada vez melhor.
É um Reino que virá, mas já chegou.
Virá, no sentido que ainda é uma utopia, algo que não existe em lugar algum. Uma utopia necessária para termos esperança no futuro. E é preciso ter esperança. Mas já chegou, no sentido de que nós não precisamos esperar por nada para vivermos da maneira que se vive neste Reino. O novo Reino chegou para aquele que dá comida ao faminto - e chegou para o faminto -, chegou para aquele que visita os meninos da Febem - e chegou para os meninos da Febem.
Este é o novo Reino que já chegou, mas que virá. É o Reino que impõe esperança e luta. Este é o Reino do qual devemos ser um sinal todos os dias. Haverá uma diferença clara entre homens, ratos e porcos, e para estes últimos, o novo Reino será o fim.


