Chega de adquirir com dinheiro o dom de Deus.

Por Gilberto Jr, dia 20/11/2007.

“Chegando a Jerusalém, Jesus entrou no templo e ali começou a expulsar os que estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas e não permitia que ninguém carregasse mercadorias pelo templo” (Marcos 11)

Uma coisa que me lembro bem do Pr. Cosme - o pastor da igreja onde nasci e fui criado - é que ele não gosta que vendam coisas na igreja. Nunca gostou de “cantinas” e coisas do gênero - sempre preferiu que se fizesse comida e distribuísse aos irmãos. É interessante como falta ao meio evangélico essa compreensão de que a igreja não pode entrar na lógica do mercado.

A ideologia da propriedade intelectual.

As leis de “propriedade intelectual” são claramente injustas [1]. Elas foram criadas e são mantidas pelos donos dos meios de produção cultural - gravadoras e oligopólios de mídia - para manterem seus lucros com a venda de objetos de arte. Ora, quando alguém copia uma música no meio digital, outra pessoa não deixa de tê-la, por isso foi preciso que a indústria materializasse a música em forma de CDs, para que houvesse a escassez, que gera valor de mercado.

Quem é músico, ator, escritor ou procura viver de qualquer outro meio artístico sabe que quem realmente ganha dinheiro com vendas de CDs e outros objetos como esses não é o artista, mas a indústria cultural. O único interessado em manter estas leis são os riquíssimos donos das grandes empresas que vivem da exploração dos artistas mal-pagos. O interesse do artista e da sociedade, e este sim precisa ser protegido a todo custo, é o de ser reconhecido como autor daquela obra (protegido contra o plágio).

A bíblia teria sido extinta.

O que aconteceria se a bíblia estivesse, desde que foi escrita, “protegida” pelas leis atuais de direitos autorais? Ela simplesmente não teria durado o suficiente para chegar até nós. Ou, no mínimo, não teria sido traduzida pelos protestantes e seria até hoje monopolizada pela igreja católica. Hoje qualquer tradução da bíblia (exceto a NVI) é protegida por estes mesmos direitos. Não se pode copiar a bíblia sem pagar para uma empresa. Isso está certo?

A indústria gospel e os direitos autorais.

Da mesma forma, a indústria de “música gospel” (gasp) é mantida pela mesma lógica de mercado da indústria cultural secular. Nutrida pela ideologia evangélica que sustenta a tese tonta (no mínimo) de que ouvir musica “do mundo” é pecado, os donos das grandes gravadoras ganham rios de dinheiro dando a entender que estão fazendo “a obra de Deus”.

É preciso informar àqueles que acreditam que copiar CD evangélico é pecado (ou crime) que a mesma lei que proíbe a cópia do CD proíbe também a execução da música. Ou seja: Tocar na sua igreja certa música da Batista Lagoinha é tão ilegal quanto copiar o CD, a não ser que você pague ao dono dos direitos autorais (geralmente a gravadora) pelo direito de execução.

O mesmo vale para os CDs de pregações de pastores. Porque praticamente todos os pastores e igrejas que gravam os sermões em CD preferem vendê-los? Porque não distribuí-los de graça? E quanto aos livros… Porque somente quem pode pagar tem o direito de ler a vasta literatura evangélica que é produzida?
O milagre da multiplicação.

Hoje qualquer um é capaz de fazer um milagre da multiplicação. Quando eu copio um arquivo digital, a pessoa que o disponibilizou não deixa de tê-lo, há uma multiplicação, não uma divisão, nem uma troca - exatamente como imaginamos que aconteceu no caso dos pães e peixes. Hoje há meios a custo quase-zero de se gravar e publicar na internet todas as pregações semanais de uma igreja - bastaria colocar no youtube, ou disponibilizar o arquivo MP3 em algum outro serviço gratuito ou rede P2P.

Porque restringir a cópia?

Não é do maior interesse de quem grava uma música em adoração a Deus que ela seja ouvida e inspire adoração a tantas pessoas quanto for possível? Não é do maior interesse de um pregador que a Palavra de Deus chegue a tantos ouvidos quanto for possível? Porque então proíbem a cópia? Porque não publicam toda sua obra com a licença creative commons?

Cobrar pela reprodução de uma obra que foi feita para servir a Deus é o mesmo que vender um Dom.

Servimos a Deus ou ao Mercado?

É exatamente nesse momento que me lembro das palavras de Jesus: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Jesus alertou-nos sobre como seria necessário escolher entre o mercado e a nossa fé.

Imagino Jesus chicoteando os exploradores da indústria gospel, os vendedores de “bíblia de estudo fulana de tal”, os vendedores de sermão, os mercantilistas da cultura cristã, como fez com aqueles que da mesma maneira profanavam a casa do Seu Pai.

Lembro-me também de Simão:

“Quando Simão viu que pela imposição das mãos dos apóstolos se dava o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu impuser as mãos, receba o Espírito Santo.

Mas disse-lhe Pedro: Vá tua prata contigo à perdição, pois cuidaste adquirir com dinheiro o dom de Deus.Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade, e roga ao Senhor para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração; pois vejo que estás em fel de amargura, e em laços de iniquidade.” (Atos 8.18-23)

Cobrar para deixar que as pessoas ouçam a Palavra de Deus - seja em forma de sermões ou música (já que na tradição protestante a música é um grande instrumento de evangelização e ensino teológico) - não é exatamente a tentação de Pedro nesta passagem? Cobrar para compartilhar com as pessoas o Dom que Deus lhe deu não é este mesmo pecado, tão sabia e duramente condenado por Pedro?

“É preciso manter o ministério financeiramente” - Será?

Alguém diria que é com a venda de sermões em CDs que se faz dinheiro para manter determinado ministério. Que é com a venda de discos que se mantém o artista gospel. Que é com a venda de livros que se mantém os escritores cristãos e produtores de bíblia. Será?

Sem entrar na discussão sobre para quem e para onde de fato vai o dinheiro de toda esta mercadoria vendida, é preciso lembrar: em que trecho da bíblia Jesus orientou seus discípulos a fazerem comércio com a Palavra ou com a cultura cristã para disso viverem? Ao contrário, ele orientou a todos a não se preocuparem com o que precisam para comer, pois Deus cuidará deles.

Fico triste por saber que vários artistas e pastores de quem eu gosto muito caem nestes erros. É com muito amor que eu peço a vocês, sábios mestres da Palavra, poetas que cantam ao coração de Deus, verdadeiros adoradores, pessoas dedicadas a servir ao próximo: procurem uma maneira melhor de distribuir suas obras, uma maneira que esteja mais próxima do que ensinam as Sagradas Escrituras.

Há muitos outros meios de sustentar um ministério.

Sabemos que a maior parte do dinheiro que uma igreja normal recebe de fato não vem das poucas coisas que vende, mas das doações. Porque então licenciar seus produtos como copyright? Porque vender aquilo que poderia ser distribuído gratuitamente? Não há necessidade real disso.

Porque não criar fundos de doação para a distribuição de CDs, bíblias, livros, etc? Certamente não faltariam pessoas comprometidas com a Igreja para ajudarem os ministros a continuarem seu trabalho. O movimento de software livre consegue fazer isso. Os gideões internacionais conseguem fazer isso. A NVI consegue. Porque a indústria gospel não conseguiria? Porque os pastores não conseguiriam?

Penso que há pessoas que realmente não têm escrúpulos e procuram lucrar com o Evangelho. Mas há um povo realmente comprometido com Deus e com o próximo que certamente aprenderá, nas próximas gerações, a utilizar todo o poder dos novos meios de comunicação para abençoar as pessoas, sem cair nas armadilhas do mercado e da indústria cultural.

“Pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai

[1] Veja o PDF: A Ideologia da Propriedade Intelectual: a inconstitucionalidade da tutela penal dos direitos patrimoniais de autor. Túlio Lima Vianna.

4 Comentários

  1. Concordo plenamente com este artigo, uma vez se não seguimos principios que Jesus nos deixou e seguimos principios deste mundo (precisamente neoliberais) deixamos de ser igreja e ser empresa, e nos membros somos os clientes ou funcionários, do qual pagamos sempre uma mensalidade, mais ofertas, mais doações entre outras coisas. Infelizmente tudo vira comércio, visando o lucro, a Educação ja esta virando, a Saúde e com certeza a igreja evangelica. Nosso alvo mudou, nao importa a quantas pessoas falamos de Cristo e sim quanto damos de ofertas e quanto gastamos na famosa Conde Sarzedas, que aliás não da nota fiscal.

    miriam - 21/11/2007 às 11:29 am
  2. Paz e bem sobre a sua alma sempre mano Gilberto Jr!

    Fiquei simplesmente maravilhado com esta reflexão, visto que a mesma, está exatamente dentro daquilo que eu sempre acreditei como sendo o “espírito do evangelho de Jesus Cristo”.

    Sou presbítero do campo do Ipiranga, tendo como líder o meu amigo pr. Miquéias Rocha de Lacerda. Atualmente estou dirigindo uma congregação no bairro do Canpanário - Diadema!

    Ah! Outra coisa, admiro demais mesmo o grande pr. Cosme Ferreira. Cá prá nóis - o cara é fera como pensador e como alguém que desemboar-se em grande reflexões - Sempre o admirei! Ele pode ser sim um paradigma de ministério.

    Parabéns mano Giba…

    De seu sempre mano no caminho…

    Sandrão

    Sandro Alves Martiniano de Souza - 22/11/2007 às 7:05 am
  3. Por favor, procuro pelo pr. Miquéias Rocha de Lacerda, fui coega dele, durante o estudo ginasial, e desde essa época, não o encontrei mais, seá que algum de vcs poderá me dar alguma informação par que eu possa localizá-lo? Meu e-amil é mavfranco@atima.com.br

    Marco Antonio - 23/12/2007 às 7:59 pm
  4. Ola. nao pude deixar de comentar esse artigo. devo dizer a voces que de forma alguma sou contra a venda de cds e dvds na igreja. uma que o ministerio nao consegue viver somente de doacoes, e que pessoas teriam interesse em simplesmente pagar um preco alto para distribuir cds e livros gratuitamente. nao ha tantos ricos assim no ministerio. nao confundam as coisas. obrigado

    felip - 24/05/2009 às 12:16 am

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