O problema do sofrimento

Por Gilberto Jr, dia 24/04/2007.

Em Subsídios para uma teodicéia, Ed René Kivitz nos presenteia com uma citação de Andrés Torres Queiruga, que eu copio abaixo:

Dizer que Deus quer e não pode abolir o mal vem a ser igual a dizer que Deus quer e não pode fazer um círculo quadrado.

Não se trata de uma potência ou impotência de Deus, mas de uma contradição de nossa mente e de nossa linguagem. Mais fácil de ser vista no caso do círculo quadrado, mas não menos certa no caso de um mundo finito.

(…) O mal - chamemo-lo assim mesmo, sem outras distinções por enquanto - é uma manifestação interna do finito.

Pretender um mundo sem mal equivale a postular um mundo estritamente infinito, pois unicamente a infinitude, ao estar por cima de toda possível contradição, ao ser absoluta plenitude, exclui de si a realidade e a possibilidade do mal. Por isso, na realidade, unicamente Deus pode estar livre do mal, porque ele é de verdade

(…) A humanidade sempre pressentiu isto em sua experiência religiosa. Daí ter intuído sempre que Deus é o único bom, o único feliz. Tudo mais é “nada”, pertence ao reino da dor e do pecado.

O mundo não é Deus, não pode ser Deus; por isso, o mal aparece necessariamente nele.

Eu confesso que não entendi bem o pensamento de Queiruga. Mas como ultimamente eu tenho escrito praticamente só sobre coisas que eu não entendo, permitam-me compartilhar algumas divagações.

O mal, o sofrimento, não é uma coisa, mas a ausência de uma coisa. O mal é como as trevas. Você não pode tirar trevas de um lugar, só pode colocar luz.

O mal, o sofrimento, por definição, é uma característica daquilo que é finito, que tem limites. O mal, então, é a expressão de que algumas coisas em nós têm limite. São coisas como bondade, misericórdia, compaixão, generosidade, gentileza, honestidade, amor…

Se o nosso amor fosse infinito, seriamos Deus. Porque não somos Deus, somos pecadores. Porque eu não sou Deus, minha gentileza tem um limite, e este limite é expresso quando eu sou grosso com a minha esposa.

Todo o mau e todo o sofrimento do mundo, seja causado pelo homem ou pela natureza, é expressão da nossa finitude como criação.

Assim como Deus não pode criar um circulo quadrado, ele não pode criar um mundo finito sem maldade e sofrimento. A decisão não poderia ser entre criar um mundo com ou sem o mal. A decisão é criar ou não criar.

Por amor, Deus decidiu criar, revelar-se a nós e salvar-nos do pecado.

Nós sofremos e somos maus porque somos finitos e vivemos num mundo finito. Somente Deus é infinito. Somente Ele pode declarar-nos perdoados, santos. Somente pela Sua graça infinita podemos ser salvos.

7 Comentários

  1. Certamente a graça de Deus é a maior benção do cristão.

    pastor gilberto - 24/04/2007 às 11:39 am
  2. “Assim como Deus não pode criar um circulo quadrado, ele não pode criar um mundo finito sem maldade e sofrimento”…
    Este pensamento vai totalmente contra à revelação da criação do mundo: Deus criou o mundo sem o mal. … “e viu Deus que tudo era bom!!!”
    Deus não criou um “círculo quadrado”, mas este cículo sofreu um desatre que o desfigurou de suas características iniciais.
    Outro pensamento que não tem harmonia alguma com a revelação é o de que “Porque não somos Deus, somos pecadores.” Isto não é verdade. Há seres que nã é Deus e nem por isso é pecador. Aliás, o ser humano foi criado sem pecado, e nem por isso foi criado Deus (desculpe-me pelo paradoxo).
    O pensamento de que o mal é a ausência do bem me parece de acordo com a revelação bíblica, pois, se o mal é a ausência ou distância de Deus, então o mal não foi criado, mas aconteceu como conseqüência do pecado.

    Roberto - 24/04/2007 às 1:56 pm
  3. Oi Roberto,

    Eu concordo com você que há vários problemas nesta idéia. Mas é a melhor resposta que eu encontrei para perguntas como:
    - Porque o sofrimento existe? Porque o mal existe?
    - Como Deus poderia criar o homem e não saber que ele seria pecador?

    Eu penso que Deus ainda olha para o mundo, como fez na criação, e vê que tudo é bom, que tudo é valioso, por causa do seu amor que cria valor no mundo.

    A bíblia precisa ser interpretada ainda hoje. A teologia não está pronta.

    Gilberto Jr - 24/04/2007 às 2:08 pm
  4. Olá Jr.
    Deus trabalha com a realidade, não descartando o potencial, que aliás, somente Ele o sabe.
    A realidade é que o mundo está enterrado no mal…
    O Potencial é que isto pode mudar, e aí vemos Deus entrar em ação, dando a oportunidade desta mudança…
    Quanto às respostas para as perguntas que você faz sobre a existência do mal, você mesmo responde no texto acima: Não há mal, e sim ausência do bem, como a luz e as trevas.
    Ah… Comparando a teologia com uma construção, podemos dizer sempre que ela não está pronta, porém, os alicerces já foram colocados. Cada um construa em cima com que achar melhor… Mas não os alicerces.

    Roberto - 25/04/2007 às 10:01 am
  5. Roberto,

    Se os alicerces estão prontos, todo o projeto do prédio está pronto. O alicerce é feito de acordo com o projeto do prédio. Uma vez que o alicerce está pronto, pode-se mudar a pintura, a decoração, uma janela, uma parede, mas o prédio como um todo não poderá ser muito diferente do jeito que o alicerce diz.

    Prefiro comparar a teologia com uma pintura. Na renascença da vinci pintou quadros maravilhosos. Mas isso não fez com que os mestres que vieram depois dele deixassem de pintar. Um pintor leva sempre em consideração o legado dos mestres anteriores a ele.

    Eu acho que cada geração deve repintar sua própria teologia.

    Gilberto Jr - 25/04/2007 às 1:15 pm
  6. 1 Coríntios 3.10-15

    Roberto - 24/05/2007 às 5:01 pm
  7. O sofrimemnto é presente na criatura humana desde o seu
    nascimento.Faz parte da vida.
    Ao nascermos somos “agredidos” com a luz intensa que nos cerca
    e o corte do cordão umbilical.

    Acostumados estávamos no líquido amniótico,e eis que viemos
    ao mundo.Sofrimento!
    Mas do sofrimento seremos resgatados na redenção dos Filhos
    de Deus.
    “As aflições do tempo presente…’ serão um nada em relação
    à eternidade.
    Felíz Ano Novo!

    José N. Rodrigues - 31/12/2007 às 9:11 pm

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