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Deus é uma pessoa que ama

Por Gilberto Jr, dia 30/03/2007.

1. O conceito de trindade.
Constantino foi o imperador Romano que liberou geral o cristianismo, que até ali era perseguido. Não somente isso, mas ele tornou o Cristianismo a religião oficial do império. Para que isso acontecesse, era necessário definir algumas questões que estavam sendo discutidas há (poucos) séculos, como a trindade. O conceito final que chegou-se (dentro do “prazo” determinado por Constantino) foi: Deus é uma substância, três pessoas.

O Catecismo da Igreja Católica diz: “Inseparáveis na sua única substância, as Pessoas divinas são inseparáveis também no seu operar: a Trindade tem uma só e mesma operação. Mas no único agir divino, cada Pessoa está presente segundo o modo que lhe é próprio na Trindade.”

2. Porque três pessoas?
A Igreja sempre creu que o Pai que criou o universo é Deus, que Jesus Cristo que viveu como homem entre nós é Deus e que o Espírito Santo que habita em nós é Deus. Os homens e mulheres simples e (alguns) iletrados que eram discípulos diretos de Jesus Cristo não precisaram de anos de debate teológico para entender isso. Eles experimentaram o Deus trino.

João viveu num universo criado pelo Pai, andou com Jesus e foi batizado no Espírito Santo. Para esta primeira Igreja, a revelação da trindade era simples, empírica, tinha base na sua própria experiência.

No entanto, depois de muitas décadas, a teologia andava muito próxima da filosofia grega, do platonismo e estoicismo principalmente. Estas doutrinas gregas ensinavam que Deus é impassível, ou seja, não pode ter sentimentos. A idéia básica de Deus era a forma da perfeição, e um Deus que sofre não seria perfeito. Por isso, mesmo quando teólogos como Tertuliano – que era completamente avesso ao uso da filosofia na teologia – pensavam sobre a trindade, o Pai um ser muito parecido com o Deus dos gregos.

Por causa disso (de Deus não poder sofrer) eles não podiam entender que Deus morreu na cruz. Somente o filho poderia ter morrido na cruz, o Pai não, o Espirito Santo também não. Se um morreu e os outros não, como podem os três serem um? Aí começou a confusão e a conclusão foi esta: não são uma só pessoa, mas três, e estão unidos pela sua substância assim como três velas acesas formam uma só luz.

3. Deus sofre, sim. É uma pessoa que ama.
Mas de onde estes primeiros teólogos tiraram a idéia de que Deus não tem sentimentos, idéia esta que é a base da formulação tradicional da trindade? Certamente não foi da bíblia, nem do ensino apostólico. A bíblia mostra claramente um Deus que pensa (1sm 2.35), se lamenta (Gn 6.5,6), se ira (Sl 90.11), se alegra (Dt 30.9) e SOFRE (Is 63.9; Ez 6.9; Mt 23.37; Lc 19.41; Jo 11.35).

Mas o sofrimento de Deus não o diminui em nada, muito pelo contrário. Jesus Cristo ensinou claramente que Deus é um Pai que ama. João ensinou que Deus é amor. Não há amor – especialmente por uma humanidade pecadora e rebelde como a nossa – sem sofrimento. Um Deus que escolheu sofrer por nós, porque nós precisamos que ele nos ame e não por deficiência em seu caráter ou falta de poder me parece mais perfeito que um Deus impassível, que criou a humanidade e é indiferente em relação a ela.

4. Deus é um só, se revela de três modos.
Assim, o único Deus se revela a nós como o Pai criador do universo, o Filho que encarnou como homem entre nós, e o Espírito Santo que foi derramado em nós. Enquanto nós, cristãos, experimentávamos nossa relação com Deus, nunca o definimos como três pessoas. Quando passamos a tentar definir a relação entre o Pai e o Filho, como um se relaciona com o outro, somente então é que procuramos definí-los como três pessoas.

Mas não é necessário, e nem correto, tentar definir a relação interna da trindade eterna entre si. Deus não pode ser conhecido “per se”, mas somente na sua relação conosco. O único Deus interage conosco como nosso Pai eterno, como Jesus nosso salvador na história e no tempo, e como o Espírito Santo nosso consolador.

Quando Jesus disse: enviarei outro consolador, quis dizer: não esperem que eu continue aqui entre vocês em carne e osso, mas eu estarei com vocês até a consumação dos séculos em Espírito.

Deus se revelou a nós como Jesus de Nazaré batizando-se no Rio Jordão, ao mesmo tempo como o Pai nosso que está no céu e que testifica a divindade de Jesus (Mt 3.17), ao mesmo tempo como o Espírito Santo que habitava em Jesus (Lc 4.14).

Deus é um, é pessoal, nos ama e se relaciona conosco. Transformá-lo em três pessoas completamente distintas, colocando-as lado a lado para que cada um escolha uma com quem quer ter mais afinidade é dividir o Deus único em três deuses.

Não sou modalista: entendo que seja absurdo pensar que não há nenhuma distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo – isso seria uma contradição com a Palavra. Mas entendo também que ver o Pai o Filho e o Espírito Santo como três pessoas distintas, tendo vem vista as definições psicológicas de “pessoa” nos termos modernos, é um absurdo.

Uma coisa é certa: Há um só Deus. O Pai, Jesus e o Espírito Santo são este único Deus.

8 Comentários

  1. Pode até ser algo antropomórfico, mas, me parece que não há capacidade na razão humana, nem em todo o seu conhecimento, para se compreender este mistério. Qualquer especulação, só mostraria o tamanho de nossa imaginação. Prefiro ficar com a ortodoxia.

    Roberto - 30/03/2007 às 1:28 pm
  2. Oi Roberto, é uma boa saída, mas é um tipo de fideísmo né… Eu até concordo que algumas coisas não podem ser compreendidas, mas, como eu disse num artigo semana passada, tudo tem que fazer sentido, ou nós somos uma religião folclórica.

    Gilberto Jr - 30/03/2007 às 1:31 pm
  3. Tudo faz sentido. O que não tem sentido, mas é verdade, a “verdedeira Fé” dá sentido.
    Dt 29.29 As coisas encobertas pertencem ao Senhor nosso Deus, mas as reveladas nos pertencem a nós e a nossos filhos para sempre, para que observemos todas as palavras desta lei.

    Roberto - 30/03/2007 às 1:58 pm
  4. e como é bom ter esse Deus conviver com ele viver para ele adora-lo e amalo com todas as forças da alma!

    pastorgilbertoalves@gmail.com - 30/03/2007 às 4:18 pm
  5. Faz sentido afirmar que a divinização de Maria surgiu no vazio criado a partir da formulação teológica de um Deus distante, rigoroso, e que neste aspecto a adoração de Maria, como mãe de Deus, plena de amor materno, resgatou a questão do amor divino para com o homem (embora a “Mariologia” não se sustente numa leitura imparcial do Novo Testamento)?

    Key - 16/04/2007 às 2:05 pm
  6. key,

    Eu acho que a divinização não faz nenhum sentido – a não ser para quem entende, seguindo a linha de Origenes, que o Papa não erra e etc. Mas concordo com você que, assim como o entendimento de um Deus compativel com a filosofia grega foi necessário nos primeiros séculos, a divinização de maria pode ter suprido uma necessidade em outra época… embora eu ache que ambas as coisas (um Deus como o de platão e maria divina) não são verdade.

    Gilberto Jr - 16/04/2007 às 4:55 pm
  7. nossa esse texto e maravilhoso.

    luana - 29/10/2008 às 9:22 am
  8. Paz
    Estou debatendo com um T.J ele me mandou provar que Deus e o Espirito Santo é uma pessoa ,eu expliquei que sim , como vi no teu blog agora realmente estou correto nisto , Deus fica triste o Espirito Santo fica triste , tem ciume , etc .
    Então o teu blog está correto.
    paz

    carlos roberto vicente - 12/06/2010 às 8:01 pm

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