O nosso cristianismo folclórico
Tem duas maneiras de ser cristão: a) Buscando entender racionalmente, filosoficamente, todas as questões do universo e tudo que o cristianismo se propõe a explicar. b) Crendo num folclore, num mito inverídico, numa fantasia inventada, como se fosse verdade.
Algumas questões são difíceis de responder. Se Deus é bom, porque o sofrimento existe? Porque a bíblia é a Palavra de Deus? Porque Deus criou o mundo? Como Deus criou o mundo? Porque algumas pessoas não serão salvas? Como Deus pode saber tudo, o futuro inclusive, e o homem ainda ter liberdade? Se Deus criou o homem, como poderia não saber que ele pecaria, ou, por que condenou o pecado que faz parte da natureza do homem que ele mesmo criou? Como o homem pode ser salvo? Porque o homem precisa ser salvo?
São muitas as questões que aparecem quando começamos a pensar sobre a nossa condição, sobre a nossa existência e sobre Deus. Existem duas maneiras de lidar com isso: folclore ou razão.
Folclore.
Se você não entende bem a lógica de uma questão sobre o cristianismo, e ao explicar acaba dizendo, “porque está escrito na bíblia” ou “porque o meu pastor falou”, seu cristianismo é folclórico. Você crê porque crê e pronto. Assim como as bruxas crêem que a natureza é divina, como os adeptos da umbanda crêem nas suas divindades, você crê “porque sim”.
O problema é que, se o cristianismo é um folclore baseado em mitos, ele não é mais verdadeiro ou diferente em nada de outras religiões, cujas bases também são somente a fé. Não há nenhum meio de convencer uma pessoa que pensa racionalmente, que o cristianismo é correto e o hinduismo é errado, quando ambos são religiões folclóricas.
Razão.
No entanto, desde que os primeiros cristãos, como o Apóstolo Paulo, começaram a explicar a doutrina da salvação aos não-judeus, principalmente aos gregos, começou-se a usar a filosofia, a razão, a lógica, até a ciência, como base do cristianismo.
Os cristãos gnósticos eram mais mitológicos, mais folclóricos. Se eles tivessem sido maioria no cristianismo, em detrimento da linha mais lógica, nós estaríamos condenados a sermos mais uma religião como tantas outras do império romano que morreram por causa da sua inconsistência filosófica.
A nossa teologia é isso: o estudo racional e lógico da fé cristã. Todas as perguntas têm que poder ser respondidas de maneira racional, mesmo que nós não possamos respondê-las, por causa da nossa incapacidade intelectual. Há uma resposta para cada pergunta, mesmo que nós não saibamos qual é.
Por isso devemos nos voltar ao estudo da Palavra e à devoção, para que a nossa pregação tenha consistência, sem abandonar o lado místico e misterioso da espiritualidade, mas procurando conciliar a razão e os milagres, os dons e a lógica, o mundo espiritual onde tudo é mistério e o mundo material onde tudo funciona de maneira racional.
Nosso Deus não é um mito. Não foi inventado por nossas mentes criativas. Por isso, a nossa existência, o modo como o universo funciona, a história-tragédia humana, tudo precisa fazer sentido em relação à existência de Deus. Eu creio nisso.


