O que Atenas tem a ver com Jerusalém ?
Seguindo a tradição metodista, vou estruturar este artigo em forma de perguntas e respostas, para buscar ser o mais conciso possível. Falo sobre o Deus dos filósofos gregos e romanos, o Deus demonstrado na Bíblia e o Deus de cada um de nós.
Os romanos criam em um só Deus ? Como ele era?
Os mais cultos, como o imperador Marco Aurélio sim. O Deus único que eles adoravam era um ser impessoal, uma energia cósmica, o princípio de tudo, presente em todas as coisas, imaterial, intangível, inalcançavel. Este Deus tinha uma Mente ou Palavra, que eles chamavam de “Logos”, que criou o universo. Eles criam que Deus determina tudo que acontece com os homens, e que tudo que acontece, é por uma boa causa.
O que este Deus tem a ver com o Deus descrito na bíblia?
São parecidos em alguns aspectos, como a criação do universo, a onipotência, onipresença e onisciência. Mas são diferentes principalmente no que diz respeito à sua relação com os homens. O Deus da bíblia é amigo dos homens, se relaciona com eles diretamente, é um Pai, não uma abstração.
Há cristãos que crêem que são o mesmo Deus?
Sim. Justino Mártir, um dos pais da fé cristã em meados do século II, comparava o cristianismo à filosofia grega e cria que o Deus dos Cristãos era o mesmo que os Romanos já adoravam. Dizia que Cristo era o logos de Deus que encarnou em Jesus. Justino Mártir dizia que o cristianismo não era muito diferente da doutrina da filosofia grega, especialmente do Estoicismo, chegou até a comparar Cristo a Sócrates, um filósofo-herói para os Romanos.
Porque Justino Mártir comparava o cristianismo à filosofia grega?
Nesta época, no século II, os cristãos eram perseguidos pelo império. O imperador Marco Aurélio, que era um filósofo Estóico, tinha o cristianismo como uma doutrina nociva e muito diferente da sua própria. Convencer os romanos de que não há tanta diferença entre o cristianismo e a doutrina grega era o modo não-violento mais interessante (e que no final funcionou) para acabar com a perseguição. Além disso, Justino Mártir era um filósofo Platonista.
Isso tudo tem a ver comigo, no século XXI?
Claro! Toda a base do que cremos está neste passado distante. A nossa teologia tem como fundamento este princípio da história cristã.
Mas esta idéia não tem base bíblica?
O primeiro capítulo de João diz que Jesus é a encarnação Logos, exatamente como Justino pregava. Mas isso pode ser entendido de duas maneiras: a) João cria que o cristianismo e a filosofia grega concordavam. b) João utilizou a idéia, já muito bem conhecida, do Logos, como uma metáfora, uma comparação, para explicar a divindade de Jesus Cristo ao povo daquela época.
Eu fico com a opção (b), tendo em vista o modo pessoal como João trata Deus em todo seu evangelho. Uma coisa é dizer: “Jesus para nós é o filho de Deus, do mesmo jeito que Buda para os budistas é filho de Deus”, para falar de Jesus aos budistas; Outra coisa é dizer: Jesus é Buda.
Quais são as conseqüências da influência da filosofia grega no cristianismo de hoje.
O deus da filosofia grega, especialmente do Estoicismo, não é radicalmente diferente do Deus cristão. Talvez haja realmente, como disse Justino, uma parte da revelação saindo da boca dos filósofos. Mas o Deus dos estóicos DECIDIA TUDO que acontece com a história humana. Se um estóico encontrasse um ente querido em perigo, a reação naturalmente seria tentar salvar sua vida. Mas se a tentativa não fosse bem sucedida e o ente querido morresse, eles pensavam: “a vida é assim mesmo”. Considerando que o Divino tudo governa e que o indivíduo morreu, então sua morte deve ter sido para o melhor. Reagir com tristeza seria ilógico.
No entanto a bíblia revela um Deus com emoções, um Deus que se entristece, que chora pelo sofrimento humano, um Deus que sofre, que se relaciona com o homem no seu dia-a-dia e que nos convida para sermos participantes na construção história. A pior conseqüência da intrusão da filosofia grega na nossa teologia é este pensamento determinista de que, porque Deus está no controle, tudo que acontece é para o bem e nada está errado e tudo está previamente decidido.
Se não somos deterministas, cremos no que ?
Cito Ed René Kivitz: “Nós é que vamos construindo o futuro. Cada decisão e escolha é um tijolinho nesta casa feita de tempo em que habitamos. Os cristãos não somos deterministas, isto é, não cremos que a vida seja um jogo de cartas marcadas ou que tudo o que nos irá acontecer esteja previamente determinado [...] na verdade cremos no oposto: a história é feita de muita coisa que jamais deveria ter acontecido, sendo que até mesmo Deus ficou contrariado e lamentou o ocorrido (Isaías 5. 1-4; Lucas 7.30.)”
Então Justino Mártir era um herege?
Calma lá… Justino Mártir é uma figura importantíssima na história da teologia cristã. Qualquer um dos mais brilhantes entre nós, no lugar dele, faria o mesmo. Ele adaptou o cristianismo às necessidades culturais da sua época. Acontece que nós, hoje, como Igreja, não precisamos entender as coisas do mesmo modo que ele entendia naquela época, mas seguir o exemplo: interpretar a Escritura de acordo com o contexto desta geração.
Então, nosso Deus é diferente do Deus dos filósofos?
O seu Deus eu não sei. O Deus do cristianismo histórico, talvez (a teologia não está pronta). O meu certamente é. Acho que Atenas e seus filósofos têm pouco a ver com Jerusalém e os ensinamentos de um rabino judeu chamado Jesus, de Nazaré, que é o filho único de do Deus vivo.
Quando um furacão destrói uma cidade inteira, Deus sofre e nós devemos socorrer o povo, pois é isso que a Palavra ensina. Quando um ente querido morre, a Morte venceu e isso é muito triste, mas Deus ressuscitará os seus para a vida eterna. Quando um político rouba o povo, Deus não tem nada a ver com isso, exceto quanto à Sua ira contra estes iníquos. Cabe a nós fazer alguma coisa para mudar este mundo injusto. Naquilo que o homem pode fazer, Deus não precisa interferir.
Creio que cada passo que damos é um passo de cooperação com Deus no sentido de construir a história. Creio que o futuro será bom ou ruim dependendo daquilo que nós fizermos ou deixarmos de fazer hoje. Creio num Deus Pai espiritual, que é amor e cuida dos seus filhos e se relaciona com eles.



Nesse ótimo post, tanto no conteúdo qto na capacidade de síntese, pareceu-me, salvo engano, que a questão da predestinação é tratada unicamente do ponto de vista teológico do autor.
Key - 27/03/2007 às 2:08 pmQuando diz “Os cristãos não somos deterministas, isto é, não cremos que a vida seja um jogo de cartas marcadas ou que tudo o que nos irá acontecer esteja previamente determinado”, ignora-se outras linhas teológicas que também, pq não, podem ser chamadas de cristãs.
De fato, uma das questões teológicas mais complexas do cristianismo, depois da trindade, é a predestinação. Se há passagens bíblicas como as citadas no post, há outras, por sua vez, que falam sobre predestinação.
Fica aí uma sugestão para temas futuros (e espinhosos).
Key, Realmente, neste texto eu estou justamente tentando demonstrar que as linhas teológicas deterministas são profundamente influenciadas pela filosofia grega, enquanto o cristianismo bíblico é mais relacional.
Gilberto Jr - 27/03/2007 às 2:13 pmPASTOR ME AJUDA COM REF. BÍBLICAS SOBRE PREDESTINAÇAO E ALGUMA MATÉRIA SOBRE ESTE ASSUNTO
ELISANGELA - 12/03/2008 às 3:09 pmacho isso verdade gostei do depo
klebber toledo - 23/08/2011 às 11:25 pmeu acho que esse comentario tem tudo a ver,só acho diferente jerusalem a cidade santa,de atenas na grécia
klebber toledo(guilherme) morde e assopra - 23/08/2011 às 11:26 pm