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O que Atenas tem a ver com Jerusalém ?

Por Gilberto Jr, dia 26/03/2007.

Seguindo a tradição metodista, vou estruturar este artigo em forma de perguntas e respostas, para buscar ser o mais conciso possível. Falo sobre o Deus dos filósofos gregos e romanos, o Deus demonstrado na Bíblia e o Deus de cada um de nós.

Os romanos criam em um só Deus ? Como ele era?
Os mais cultos, como o imperador Marco Aurélio sim. O Deus único que eles adoravam era um ser impessoal, uma energia cósmica, o princípio de tudo, presente em todas as coisas, imaterial, intangível, inalcançavel. Este Deus tinha uma Mente ou Palavra, que eles chamavam de “Logos”, que criou o universo. Eles criam que Deus determina tudo que acontece com os homens, e que tudo que acontece, é por uma boa causa.

O que este Deus tem a ver com o Deus descrito na bíblia?
São parecidos em alguns aspectos, como a criação do universo, a onipotência, onipresença e onisciência. Mas são diferentes principalmente no que diz respeito à sua relação com os homens. O Deus da bíblia é amigo dos homens, se relaciona com eles diretamente, é um Pai, não uma abstração.

Há cristãos que crêem que são o mesmo Deus?
Sim. Justino Mártir, um dos pais da fé cristã em meados do século II, comparava o cristianismo à filosofia grega e cria que o Deus dos Cristãos era o mesmo que os Romanos já adoravam. Dizia que Cristo era o logos de Deus que encarnou em Jesus. Justino Mártir dizia que o cristianismo não era muito diferente da doutrina da filosofia grega, especialmente do Estoicismo, chegou até a comparar Cristo a Sócrates, um filósofo-herói para os Romanos.

Porque Justino Mártir comparava o cristianismo à filosofia grega?
Nesta época, no século II, os cristãos eram perseguidos pelo império. O imperador Marco Aurélio, que era um filósofo Estóico, tinha o cristianismo como uma doutrina nociva e muito diferente da sua própria. Convencer os romanos de que não há tanta diferença entre o cristianismo e a doutrina grega era o modo não-violento mais interessante (e que no final funcionou) para acabar com a perseguição. Além disso, Justino Mártir era um filósofo Platonista.

Isso tudo tem a ver comigo, no século XXI?
Claro! Toda a base do que cremos está neste passado distante. A nossa teologia tem como fundamento este princípio da história cristã.

Mas esta idéia não tem base bíblica?
O primeiro capítulo de João diz que Jesus é a encarnação Logos, exatamente como Justino pregava. Mas isso pode ser entendido de duas maneiras: a) João cria que o cristianismo e a filosofia grega concordavam. b) João utilizou a idéia, já muito bem conhecida, do Logos, como uma metáfora, uma comparação, para explicar a divindade de Jesus Cristo ao povo daquela época.

Eu fico com a opção (b), tendo em vista o modo pessoal como João trata Deus em todo seu evangelho. Uma coisa é dizer: “Jesus para nós é o filho de Deus, do mesmo jeito que Buda para os budistas é filho de Deus”, para falar de Jesus aos budistas; Outra coisa é dizer: Jesus é Buda.

Quais são as conseqüências da influência da filosofia grega no cristianismo de hoje.
O deus da filosofia grega, especialmente do Estoicismo, não é radicalmente diferente do Deus cristão. Talvez haja realmente, como disse Justino, uma parte da revelação saindo da boca dos filósofos. Mas o Deus dos estóicos DECIDIA TUDO que acontece com a história humana. Se um estóico encontrasse um ente querido em perigo, a reação naturalmente seria tentar salvar sua vida. Mas se a tentativa não fosse bem sucedida e o ente querido morresse, eles pensavam: “a vida é assim mesmo”. Considerando que o Divino tudo governa e que o indivíduo morreu, então sua morte deve ter sido para o melhor. Reagir com tristeza seria ilógico.

No entanto a bíblia revela um Deus com emoções, um Deus que se entristece, que chora pelo sofrimento humano, um Deus que sofre, que se relaciona com o homem no seu dia-a-dia e que nos convida para sermos participantes na construção história. A pior conseqüência da intrusão da filosofia grega na nossa teologia é este pensamento determinista de que, porque Deus está no controle, tudo que acontece é para o bem e nada está errado e tudo está previamente decidido.

Se não somos deterministas, cremos no que ?
Cito Ed René Kivitz: “Nós é que vamos construindo o futuro. Cada decisão e escolha é um tijolinho nesta casa feita de tempo em que habitamos. Os cristãos não somos deterministas, isto é, não cremos que a vida seja um jogo de cartas marcadas ou que tudo o que nos irá acontecer esteja previamente determinado [...] na verdade cremos no oposto: a história é feita de muita coisa que jamais deveria ter acontecido, sendo que até mesmo Deus ficou contrariado e lamentou o ocorrido (Isaías 5. 1-4; Lucas 7.30.)”

Então Justino Mártir era um herege?
Calma lá… Justino Mártir é uma figura importantíssima na história da teologia cristã. Qualquer um dos mais brilhantes entre nós, no lugar dele, faria o mesmo. Ele adaptou o cristianismo às necessidades culturais da sua época. Acontece que nós, hoje, como Igreja, não precisamos entender as coisas do mesmo modo que ele entendia naquela época, mas seguir o exemplo: interpretar a Escritura de acordo com o contexto desta geração.

Então, nosso Deus é diferente do Deus dos filósofos?
O seu Deus eu não sei. O Deus do cristianismo histórico, talvez (a teologia não está pronta). O meu certamente é. Acho que Atenas e seus filósofos têm pouco a ver com Jerusalém e os ensinamentos de um rabino judeu chamado Jesus, de Nazaré, que é o filho único de do Deus vivo.

Quando um furacão destrói uma cidade inteira, Deus sofre e nós devemos socorrer o povo, pois é isso que a Palavra ensina. Quando um ente querido morre, a Morte venceu e isso é muito triste, mas Deus ressuscitará os seus para a vida eterna. Quando um político rouba o povo, Deus não tem nada a ver com isso, exceto quanto à Sua ira contra estes iníquos. Cabe a nós fazer alguma coisa para mudar este mundo injusto. Naquilo que o homem pode fazer, Deus não precisa interferir.

Creio que cada passo que damos é um passo de cooperação com Deus no sentido de construir a história. Creio que o futuro será bom ou ruim dependendo daquilo que nós fizermos ou deixarmos de fazer hoje. Creio num Deus Pai espiritual, que é amor e cuida dos seus filhos e se relaciona com eles.

5 Comentários

  1. Nesse ótimo post, tanto no conteúdo qto na capacidade de síntese, pareceu-me, salvo engano, que a questão da predestinação é tratada unicamente do ponto de vista teológico do autor.
    Quando diz “Os cristãos não somos deterministas, isto é, não cremos que a vida seja um jogo de cartas marcadas ou que tudo o que nos irá acontecer esteja previamente determinado”, ignora-se outras linhas teológicas que também, pq não, podem ser chamadas de cristãs.
    De fato, uma das questões teológicas mais complexas do cristianismo, depois da trindade, é a predestinação. Se há passagens bíblicas como as citadas no post, há outras, por sua vez, que falam sobre predestinação.
    Fica aí uma sugestão para temas futuros (e espinhosos).

    Key - 27/03/2007 às 2:08 pm
  2. Key, Realmente, neste texto eu estou justamente tentando demonstrar que as linhas teológicas deterministas são profundamente influenciadas pela filosofia grega, enquanto o cristianismo bíblico é mais relacional.

    Gilberto Jr - 27/03/2007 às 2:13 pm
  3. PASTOR ME AJUDA COM REF. BÍBLICAS SOBRE PREDESTINAÇAO E ALGUMA MATÉRIA SOBRE ESTE ASSUNTO

    ELISANGELA - 12/03/2008 às 3:09 pm
  4. acho isso verdade gostei do depo

    klebber toledo - 23/08/2011 às 11:25 pm
  5. eu acho que esse comentario tem tudo a ver,só acho diferente jerusalem a cidade santa,de atenas na grécia

    klebber toledo(guilherme) morde e assopra - 23/08/2011 às 11:26 pm

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