O povo do trovão

Por Gilberto Jr, dia 4/03/2007.

Na década de 70, João Lázaro, recém aposentado, não via TV. Não via porque não tinha uma em casa. Não tinha porque naquela época a sua igreja dizia que era pecado. Sem TV, João passava suas tardes aposentadas na biblioteca, onde conhecia e era conhecido de todos. Ele jogava damão com alguns amigos e, quando não havia ninguém com quem conversar, lia.

Lá pelas 17, perto da hora de voltar para casa, o sol já parecia cansado e João havia acabado de terminar um livro muito gostoso sobre a Espanha. Procurou imediatamente, como sempre fazia, outra coisa para continuar lendo. Encontrou, numa estante esquecida e empoeirada no canto da biblioteca um livro pequeno, com acabamento finíssimo e uma capa que parecia ser de couro, que ele não saberia dizer do que - sabia que não era sintético nem de qualquer bicho que ele conhecesse.

O livro chamava-se “O povo do trovão”, não continha editora, número de registro, prefácio ou qualquer uma destas coisas que os livros geralmente têm. Tinha a história, que ele me contou. Até hoje João não soube me dizer se é de ficção ou verdadeira, nem eu cheguei sozinho a nenhuma conclusão sobre isso.

O povo do trovão fora escrito por um viajante e contava a história de um povo muito mais antigo que o da Terra. No princípio do livro, eles viviam em cavernas, comendo aquilo que as mulheres conseguiam coletar - exatamente como nós, há milhares de anos atrás. Um dia, o céu, que naquele lugar era sempre limpo e brilhante, se tornou tão sombrio, escuro e triste quanto o rosto do velho João ao ver sua vida espalhada no espelho do passado. Jamais o povo do trovão havia visto um céu sem sol e negro como aquele. Havia chuva, de tempos em tempos, mas nunca uma tempestade como aquela.

A revolta do céu se intensificou, como se o mundo fosse acabar. Então um brilho se fez presente, acompanhado de um estrondo. Todos que ouviram e viram, pensaram que ficariam cegos e surdos. O estrondo parecia sacudir o universo, o brilho parecia derretê-lo. Nas cavernas, encolhidos, homens e mulheres tinham um olhar pálido e congelado… Era como se uma fera estivesse presente e prestes a devorar a todos. Deste dia em diante o povo começou a adorar aquilo que chamaram de Trovão.

Com o passar dos anos outros trovões se fizeram conhecer. Um deles, o segundo, caiu em uma árvore, que foi completamente destruida. O povo entendeu que não somente o trovão deveria ser adorado, mas também todas as árvores. Assim aconteceu também com uma ovelha, e todos os animais se tornaram sagrados. E foi acontecendo pouco a pouco, geração após geração: o rio, a terra, o mar, os insetos, metais, minerais… Após muitas vidas, tudo era sagrado.

Os inteligentíssimos sacerdotes do povo do trovão desenvolveram uma complexa e quase inacessível teologia. Segundo eles, havia um Ser, uma existência em todo o universo. Eles diziam em suas escrituras que “uma pedra, um carneiro e uma macieira são a mesma coisa em sua essência”. Esta teologia gerou uma grande divisão, parte do povo passou a adorar o Ser que era a essência de tudo em todos, um Ser que estava acima e era mais poderoso que tudo, acima até do próprio trovão, e que estava presente em todos os elementos da natureza.

Outra parte do povo, os que seguiram a tradição, continuou crendo que todas as coisas eram singulares e holísticas e deveriam ser sagradas como unidades que faziam parte e formavam o todo. Havia outras religiões, muito menores, consideradas seitas pela maioria, mas o viajante preferiu explicar em seu livro estas duas somente.

A crença no Trovão, em ambas as ramificações, gerou neste povo uma prática singular: como tudo era sagrado, tudo deveria ser preservado. Cada ser, cada espécie, cada rio, cada planta, cada novo elemento encontrado se relacionava e se harmonizava com toda a natureza de uma maneira única e o povo deveria fazer parte, ser mais um, viver em harmonia com tudo.

Alguns criam que era permitido alterar o universo, transformando coisas encontradas na natureza para dar mais conforto ao povo, desde que isso não levasse à extinção ou deterioração permanente da espécie ou elemento utilizado. Os mais tradicionais diziam que isso era pecado, que o homem deveria aprender a conviver com as coisas do modo como elas são. No entanto, havia um consenso, uma lei maior que estava gravada no coração de todos: tudo que existia era sagrado e devia ser preservado.

Por mais que eu insistisse que não queria saber (porque queria ler eu mesmo o livro e também porque queria ir embora pois já era tarde e João contava sem pressa cada detalhe desta história, que estou resumindo muito aqui para não aborrecer o leitor), João me contou o fim do livro.

Ele disse que o viajante, que tinha o poder de transitar livremente no tempo e no espaço, documentou toda a história do povo do trovão até sair do planeta deles e vir à Terra, para fazer o mesmo. O livro termina contando que o povo do trovão continua livre e feliz mesmo muito tempo depois do nosso planeta Terra se tornar novamente sem forma e vazio, um deserto sem vida causado pelo homem e sua teologia tão estranha e diferente, que adorava um Criador do universo enquanto destruía sistematicamente tudo que Ele havia criado.

Um Comentário

  1. Creio prufundamente que um dia o homem vai destruiro planeta Terra.O ser homem,devido a ambição materalista sem controle,Perdeu em poucas decadas em nome do desenvovimento,o respeito pela natureza…

    jocely - 14/02/2010 às 8:47 pm

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