Um Lindo Bordado
Outro dia eu vi um pedaço de tecido, de algodão crú, jogado num canto, todo triste. Eu não perguntei porque ele estava chateado, mas ele disse assim mesmo: “Não aguento mais aquela agulha, indelicada, todos os dias a me furar”. Começamos a conversar, eu e o pano:
- Mas você já disse à agulha que não gosta da atitude dela ? Perguntei, fingindo estar interessado.
- Ué, mas não é óbvio que eu não gosto? Alguém gosta de ser furado daquele jeito ? Respondeu o pano, alterando o tom de voz.
- Talvez ela realmente não saiba que você não gosta. Acontece… Bom, eu vou falar com a agulha, ok ? Quem sabe isso não é só um mal entendido.
- Duvido!
Fui falar com a agulha e ela disse que só estava fazendo seu trabalho e que jamais havia pensado que o pano não gostava do maravilhoso bordado que ela e a linha estavam desenhando nele. A agulha disse ainda que algodão crú bordado com desenhos art-nouveau será o máximo da moda na próxima estação.
O pano jamais tinha imaginado que a agulha só pensava no melhor para ele. Depois que eu contei tudo ao pano, ele entendeu e aceitou bem. Eles finalmente conversaram e, a pesar do clima pesado, acabaram se acertando. O pano a final se tornou uma peça de roupa lindíssima, não se sabe se calça ou blusa.
Eu contei esta história aos outros panos e disse que eles deveriam pensar sempre o melhor dos outros, incluindo aí a famigerada agulha. Disse que quando temos dúvida quanto ao comportamento do próximo, devemos acreditar na melhor das hipóteses. Mas mesmo assim alguns preferiram virar pano de chão a dar o braço a torcer.


