porque eu estou indo para o inferno
Eu acho essa coisa de inferno muito complicada. Tenho dificuldade de entender como um Deus bom pode preparar cuidadosamente um ambiente de eterno sofrimento para sua criação, mesmo que rebelde. Sofrimento como retribuição do mal eu até entendo - embora não acredite que a justiça retributiva seja realmente ética - mas porque precisa ser eterno? Acho no mínimo exagerado.
Mas se Jesus estava se referindo ao tal inferno em Mateus 25 quando disse “o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”, eu provavelmente vou para o inferno. Pelo menos se não mudar de vida.
Como a maioria de vocês que me lêem, eu trabalho bastante, todos os dias. Não faço muito mais do que trabalhar na minha empresa durante a semana. E meu trabalho não tem nada a ver com dar comida a quem tem fome, água a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, visitar e libertar os cativos… No fim de semana eu vou à igreja, canto e ouço a mensagem como todo mundo, mas, de novo, essas atividades não têm muito a ver com essas características que Jesus determinou que são comuns aos que não vão para o inferno.
Mas a minha igreja está fazendo uma grande campanha agora no fim do ano, na qual eu tenho a oportunidade de fazer uma doação para um fundo que será revertido a diversas ONGs e entidades assistenciais para idosos, gestantes, crianças de rua, adolescentes da febem, moradores de rua, entre outros necessitados.
O meu problema é que mesmo estando em uma igreja tão alinhada com a mensagem de Jesus, eu não estou convencido de que doar para a campanha de natal é o bastante - nem tampouco o pessoal mais lúcido que conheço na minha igreja acredita nisso.
Veja só: o Brasil sempre foi muito desigual. Mas da constituição de 88 pra cá, a desigualdade está caindo bastante. Embora o Brasil tenha tido um governo de centro-direita e outro de centro-esquerda, ambos de caráter neoliberal, os índices de mortalidade infantil despencaram nos últimos 20 anos, a quantidade de pessoas na extrema pobreza continua caindo bastante. E isso aconteceu, nesta velocidade, só depois da constituição de 88, que garantiu constitucionalmente alguns direitos sociais fundamentais para que um governo possa cuidar dos pobres.
O que quero dizer é que sem mudar a base material, a realidade concreta, a estrutura, o metabolismo social, sem mudanças políticas reais, não adianta dar comida ao faminto. Não basta dar o peixe e ensinar a pescar se houver alguém tomando do pescador quase todos os peixes que ele pesca. É preciso lutar por avanços estruturais.
E minha igreja não está passando nem perto de tocar nestas questões, não sei porque. Como a assistência social aos mais carentes da sociedade é parte importante do sistema neoliberal, pois compensa a desigualdade o suficiente para manter os miseráveis quietos, as ações assistenciais sem o apoio de uma ação mais estrutural, tentam apagar o fogo com gasolina.
Eu não estou fazendo muita coisa (embora eu faça alguma coisa) na direção de trabalhar por mudanças reais pelos pobres. Por isso acho que se eu morresse hoje, eu iria para o inferno. Mas eu acredito que ainda tenho tenho tempo para corrigir essa situação e me tornar um verdadeiro discípulo de Cristo. Quem sabe ano que vem.


