O quereres

“Não amem os caminhos do mundo. Não amem as delícias do mundo. O amor pelo mundo faz escorrer de nós nosso amor pelo Pai. Praticamente tudo que acontece no mundo — querer tudo do seu jeito, querer tudo para si mesmo, querer parecer importante — não tem nada a ver com o Pai. Isso só nos distancia dele. O mundo e seus quereres passam, mas aquele que faz o que o Pai quer permanecerá para a eternidade.”

Esta é uma tradução minha da passagem de 1 João 2.15-17 a partir da paráfrase The Message, que eu li por acaso, para conhecer esta versão.

Sabendo mais ou menos de cor este trecho desde pequeno, sempre foi um grande mistério para mim o que eram essas tais concupiscência de que a versão Almeida fala, concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. A NVI traz outra visão: cobiça da carne, cobiça dos olhos e ostentação dos bens.

Na The Message Eugene Peterson oferece esta interpretação dos três quereres: querer tudo do seu jeito, querer tudo para si mesmo, querer parecer importante.

Depois que li esta última versão, fiquei com esses quereres na cabeça. Que me lembra “o quereres”, do Caetano:

O quereres e o estares sempre a fim,
Do que em mim é em ti tão desigual…

Faz-me querer-te bem;
Querer-te mal:

Bem a ti, mal ao quereres assim:

Infinitivamente impessoal;
E eu querendo querer-te sem ter fim!

E querendo-te,
Aprender o total…

Do querer que há;
E do que não há em mim!

Tudo isso, ficou rodando na minha cabeça, lembrando-me que a mensagem do evangelho é uma mensagem que põe fim ao infinito quereres cobiçoso do ser humano. Não ao querer que nos leva pra frente, o querer o bem do próximo, o querer um mundo mais justo. Não ao “só quero aquilo que não é meu”, do Manifesto Antropófago, de Oswald de Andrade. Não…

O amor pelo Pai põe fim ao quereres que faz uma pessoa se virar contra a outra. Ao querer tudo do seu jeito, sem saber negociar para encontrar o bem para o coletivo, usando todo poder que estiver à mão para fazer seu querer realizar-se.  O querer tudo para si, mesmo quando vê o outro em extrema necessidade. O querer parecer importante, justamente porque sabe que não é.

Importante é aquele que ama ao Pai. E quem ama ao Pai ama as pessoas. E quem ama as pessoas não se conforma em vê-las sendo oprimidas sem fazer nada. Este pode olhar para a eternidade com esperança.

Maus Samaritanos

Por Gilberto Jr, dia 9/06/2008. Um Comentário

O fariseu passou por um homem quase morto jogado na beira da estrada e não fez nada. O bom samaritano passou pelo mesmo homem e cuidou dele até que ele tivesse sua dignidade restaurada. Vocês conhecem a parábola.

Os cristãos passam todos os dias, no caminho de casa para o trabalho, para a escola, na cidade, no campo, por dezenas de homens quase mortos jogados na beira da estrada.

Os cristãos sabem que há milhões de homens quase mortos de fome na beira das estradas da sociedade. Que há milhões de homens quase mortos por não fazer nada na vida além de trabalhar para mal conseguir ganhar o pão e morrer sem um leito de hospital na beira das cidades, nas periferias.

Os cristãos sabem que há nações inteiras, povos inteiros, etnias inteiras, e até continentes inteiros jogados quase mortos, na guerra, na fome, na miséria, nas doenças facilmente curáveis, na beira do atual sistema de desenvolvimento.

E individualmente cada um de nós passa ao largo, sem olhar para as pessoas necessitadas que encontramos, exatamente como o farizeu, preocupados com a música que cantaremos no próximo culto de domingo.

E coletivamente a cristandade passa ao largo, sem olhar para as crises sociais, exatamente como o farizeu, preocupados com as nossas instituições, com nossos eventos, com a defesa dos nossos dogmas e da nossa maneira peculiar de entender o que é ser cristão perante idéias não muito divergentes.

Passamos ao largo. Nosso olhar está bem longe do lugar para o qual Deus está olhando. Nossa mão está bem longe do lugar onde está a mão de Deus. Nosso trabalho está bem longe do lugar onde Deus quer que nós trabalhemos.

Cada vez mais fico em dúvida se devo continuar falando a quem não tem ouvidos para ouvir ou se devo me voltar para aqueles que, sem consciência, exatamente como o samaritano que para o farizeu era a pessoa que não conhecia a Lei e não era digna dela nem poderia cumpri-la, estão mais próximos de serem cristãos verdadeiros do que qualquer “cristão exemplar” de qualquer uma das tradições cristãs expressivas de que tenho conhecimento.

Cada vez mais percebo que ser verdadeiramente cristão é não ser aquilo que o consenso eclesiástico diz que é ser cristão. Cada vez mais percebo que ficar longe daquilo que se chama por aí de igreja é a melhor maneira de encontrar o verdadeiro Corpo de Cristo.

Como seria o culto de domingo sem música e mensagem?

Por Gilberto Jr, dia 26/05/2008. Um Comentário

Quando eu era criança, para comer pizza era preciso ir até uma pizzaria. Depois que as pizzarias passaram a entregar pizza em casa, faz pouco sentido ir à pizzaria. No culto, quando chega a hora da mensagem, meu pai costuma dizer: agora vem o prato principal.

Diversas igrejas estão descobrindo a internet. É possível, e relativamente fácil, disponibilizar na internet de graça vídeos com todos os cultos de uma igreja, ou o áudio das músicas e das mensagens.

É a igreja delivery: se antes só podíamos ouvir a mensagem indo à igreja, agora não precisamos mais ir. Se antes precisávamos ir à igreja para ouvir louvores, agora basta colocar um CD ou ligar o rádio. Será que
o culto de domingo ainda faz sentido?

Faz, mas nem tanto para ouvir a Palavra que alimenta nossos corações, nem tanto para ouvir louvores que exaltam a Deus, mas para participar todos juntos dos rituais que unem uma comunidade na direção da edificação mutua, da adoração e do serviço.

Sendo assim, vamos pensar juntos. Imagine que nós (eu e os 200 e poucos assinantes deste blog) estamos formando uma nova comunidade totalmente experimental.

Como você faria um culto de domingo, buscando a celebração e a edificação e a adoração, mas sem música e mensagem (pois essa comunidade ouviria todos os dias músicas gravadas e mensagens pregadas por vários dos seus membros e disponibilizadas na internet)? Como seria essa comunidade?

O dever de desobedecer

Gostei bastante deste artigo de Marcelo Barros, publicado no site Adital. Seguem alguns trechos:

Conforme a Bíblia, quando as autoridades de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: “Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus” (At 5, 29).

Objetar é opor-se determinadamente a cumprir uma lei que fere a consciência. Há objeção de consciência quando a pessoa se nega a cumprir ordens anti-éticas, ou que firam a vida.

Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com mais razão ainda, as religiões e Igrejas devem reconhecer o direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto.

A negação deste direito abre a porta ao fundamentalismo religioso, hoje, responsável por tantos atos de intolerância e violência. O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social.

Paulo escreveu aos Coríntios: “Onde estiver o Espírito do Senhor, aí haverá liberdade” (2 Cor 3, 17). E aos Gálatas: “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Vocês não devem aceitar, por nenhum pretexto, voltar à situação de não liberdade” (Gl 5, 1. 13).

Gostamos de afirmações definitivas, não de dúvidas.

Por Gilberto Jr, dia 12/05/2008. Um Comentário

Meus últimos artigos têm apresentado mais dúvidas do que afirmações. Ed René publicou no informativo IBAB de ontem um artigo que fala justamente disso, chama-se Há Controvérsias. Segue um resumo:

“Gostamos de afirmações categóricas, declarações definitivas e certezas. Não gostamos de perguntas, considerações provisórias, dúvidas, debates e discussões.

Gostamos de respostas prontas e critérios claramente definidos. Não gostamos de probabilidades, possibilidades e indicadores relativos.

Gostamos de “isso ou aquilo”. Não gostamos de “isso e aquilo”. Gostamos de “certo e errado”. Não gostamos de “nem certo, nem errado”, apenas diferente.

Deus é amor. Deus é justiça. Quando, então, devemos agir com amor e quando devemos optar pela justiça? Exigimos: uma coisa ou outra, categoricamente, sem necessidade de interpretações. Dizer que somente a ação amorosa é justa e somente a ação justa é amorosa deixa margens para mal entendidos e, conseqüentemente, confusão. Melhor é escolher entre uma coisa e outra; as duas não dá. Ou amor ou justiça.

Talvez por isso sejam poucos os que se aventuram pelas trilhas do discipulado de Jesus. Seguir a Jesus implica abandonar o jugo da lei para buscar a justiça do reino de Deus. A justiça sempre extrapola a lei.

O ser humano é complexo demais para que suas ações sejam resumidas a um conjunto de “isso pode e isso não pode”. A vida é complexa demais para que tenha suas circunstâncias definidas em termos absolutos por mandamentos, regras e normas de procedimento. A vida não cabe num manual.

Tomar decisões é uma arte que carece de boa consciência. E a boa consciência não é aquela que sabe, é aquela que ama. Como bem disse Santo Agostinho, “ama e faze oque quiseres”, o que significa que quando a gente ama não existe certo e errado, certo? Há controvérsias.