Uma leitura de Mateus 16

Por Gilberto Jr, dia 4/04/2011. Um Comentário

No evangelho segundo Mateus capítulo 16, Jesus pergunta aos seus discípulos: “quem os homens dizem ser o filho do homem”? Jesus aqui não está perguntando o que as pessoas dizem que Ele, Jesus, é, mas quem é o sujeito a quem as pessoas dão o título de “filho do homem”.

É importante notar que, embora no grego a palavra para homem em “os homens dizem” e “filho do homem” seja a mesma, “anthropos”, esta passagem parece ser uma clara referência à forma poética do Salmo 8, no qual o salmista pergunta “quem é o homem para que tu se lembres dele, e o filho do homem para que tu o vejas?”.

A Septuaginta, o velho testamento em grego usado pelos judeus da época de Jesus, usa exatamente a mesma forma, com “anthropos” para “homem” e “filho do homem”. Mas no hebraico, o salmista usa dois termos distintos: primeiro ele usa “enowsh” para denotar um homem comum, quase um homem doente, e depois usa “adão”, denotando o homem sagrado, o homem primordial (em alemão, Jung diz “Urmensch”).

Esta expressão “filho de adão” é associada à figura do Messias, o Rei prometido para salvar Israel da opressão.

O evangelho de Mateus é conhecido por ser o mais judaizante dos quatro evangelhos. Em Mateus, Jesus é retratado como um rabino que veio para manter as leis judaicas como estão. Não existe neste evangelho o conceito de cristianismo como uma religião completamente separada do judaismo, mas Jesus é apontado como o Messias, o salvador prometido.

É provável que este evangelho, portanto, fosse o mais popular entre os primeiros cristãos que criam que para ser cristão era necessário circuncidar-se, guardar o Sábado, e cumprir todas as exigências da lei de Moisés.

Um judeu desta época, ao ler ou ouvir a pergunta de Jesus entenderia imediatamente que ele estava perguntando: “quem as pessoas por aí acham que é o Messias”?

E seus discípulos responderam: alguns acham que o messias foi Elias, outros Jeremias, outros João Batista, outros acham que foram outros profetas por aí… Jesus não parecia estar entre os mais cotados para o título de messias, pelo menos não na opinião popular.

E os discípulos de Jesus? Será que eles estavam seguindo-o como mais um rabino, ou ainda um profeta importante? Ou será que eles tinham consciência de que estavam diante do Messias? Jesus pergunta diretamente: o que vocês diriam que eu sou?

Pedro responde imediatamente ao seu mestre: “o Cristo, o Messias, o Salvador, o filho do Deus vivo”.

E Jesus responde ao seu discípulo: quem revelou isso a você não foi nenhuma pessoa de carne e osso, mas o meu Pai que está no céu. A quem se referia Jesus ao usar a expressão “carne e sangue” (que quer dizer “uma pessoa de verdade”, equivalente ao nosso “de carne e osso”)?

Eu acho que aqui Jesus se referia a si mesmo, ele estava lá de carne o osso em frente a seus discípulos e não chegou a eles dizendo “ei, venha me seguir, eu sou o Cristo, o Rei de Israel, o filho único do Deus vivo”.

Jesus aqui procura deixar claro aos seus discípulos: vocês têm andado comigo, e por me conhecerem de perto e se relacionarem comigo no dia-a-dia, por conhecerem o meu caráter, a minha conduta, o meu trabalho, sabem quem eu sou: o salvador que veio para dizer que o Reino de Deus chegou.

E por serem meus discípulos, é com vocês que eu vou formar a minha assembléia, e nem o próprio Hades, o deus do inferno, poderá resistir a ela em sua luta contra a opressão!

A defesa da vida e da família nestas eleições

Na reta final para as eleições, uma discussão tem se espalhado entre cristãos: a de que “é preciso defender a vida e a família”. Sob este bonito slogan esconde-se outro, mais claro, mas bem menos bonito: aborto e casamento homossexual devem ser crimes. A “acusação” é a de que o PT estaria comprometido a legalizar o aborto e o casamento homossexual.

Eu poderia entrar na polêmica e problematizar bastante a questão do aborto e dos homossexuais em si. Mas não quero. Em vez disso, quero propor que pensemos nos partidos: é verdade que geralmente os partidos de esquerda são a favor de descriminalizar o aborto para proteger as mulheres dos abortos clandestinos, é verdade que geralmente os partidos de esquerda não querem negar aos homossexuais os mesmos direitos civís dos heterossexuais.

Mas também é verdade que nenhum, absolutamente nenhum partido de direita pode ser a favor da vida. São os mesmos partidos de direita que lutam contra o aborto que tentam aprovar a pena de morte. São estes partidos de direita que entendem que a solução para a violência é a ROTA, que mata indiscriminadamente os meninos pobres da periferia. São estes partidos de direita que lutam pelo máximo lucro para as elites, aprofundando as desigualdades e a miséria. São estes os partidos da ditadura, da censura, da tortura, da guerra.

Além disso, uma coisa boa sobre os partidos de esquerda é que eles são democráticos: se você quiser realmente lutar pela vida, não seja hipócrita, vá além de espalhar emails com denúncias moralistas e engage-se na conversa com os militantes dos partidos que de fato lutam pela vida e pela liberdade, visite e converse com as mulheres que foram violentadas pelo aborto ilegal, conheça os homossexuais que apanham e sofrem a vida inteira por serem como são… ajude, dentro de um partido que se preocupa de fato com a vida, a propor para o Brasil uma solução para por fim à violência que estas pessoas sofrem, não a fazê-las sofrer ainda mais.

Se você quer realmente lutar pela vida e acha que se preocupa com estas questões, faça como Jesus, que veio para libertar os cativos e dar fim ao sofrimento, não para por em cativeiro e destruir para sempre a vida de mães que já sofreram suficiente violência, terror e dor para uma vida inteira.

porque eu estou indo para o inferno

Eu acho essa coisa de inferno muito complicada. Tenho dificuldade de entender como um Deus bom pode preparar cuidadosamente um ambiente de eterno sofrimento para sua criação, mesmo que rebelde. Sofrimento como retribuição do mal eu até entendo – embora não acredite que a justiça retributiva seja realmente ética – mas porque precisa ser eterno? Acho no mínimo exagerado.

Mas se Jesus estava se referindo ao tal inferno em Mateus 25 quando disse “o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos”, eu provavelmente vou para o inferno. Pelo menos se não mudar de vida.

Como a maioria de vocês que me lêem, eu trabalho bastante, todos os dias. Não faço muito mais do que trabalhar na minha empresa durante a semana. E meu trabalho não tem nada a ver com dar comida a quem tem fome, água a quem tem sede, acolher o estrangeiro, vestir o nu, visitar e libertar os cativos… No fim de semana eu vou à igreja, canto e ouço a mensagem como todo mundo, mas, de novo, essas atividades não têm muito a ver com essas características que Jesus determinou que são comuns aos que não vão para o inferno.

Mas a minha igreja está fazendo uma grande campanha agora no fim do ano, na qual eu tenho a oportunidade de fazer uma doação para um fundo que será revertido a diversas ONGs e entidades assistenciais para idosos, gestantes, crianças de rua, adolescentes da febem, moradores de rua, entre outros necessitados.

O meu problema é que mesmo estando em uma igreja tão alinhada com a mensagem de Jesus, eu não estou convencido de que doar para a campanha de natal é o bastante – nem tampouco o pessoal mais lúcido que conheço na minha igreja acredita nisso.

Veja só: o Brasil sempre foi muito desigual. Mas da constituição de 88 pra cá, a desigualdade está caindo bastante. Embora o Brasil tenha tido um governo de centro-direita e outro de centro-esquerda, ambos de caráter neoliberal, os índices de mortalidade infantil despencaram nos últimos 20 anos, a quantidade de pessoas na extrema pobreza continua caindo bastante. E isso aconteceu, nesta velocidade, só depois da constituição de 88, que garantiu constitucionalmente alguns direitos sociais fundamentais para que um governo possa cuidar dos pobres.

O que quero dizer é que sem mudar a base material, a realidade concreta, a estrutura, o metabolismo social, sem mudanças políticas reais, não adianta dar comida ao faminto. Não basta dar o peixe e ensinar a pescar se houver alguém tomando do pescador quase todos os peixes que ele pesca. É preciso lutar por avanços estruturais.

E minha igreja não está passando nem perto de tocar nestas questões, não sei porque. Como a assistência social aos mais carentes da sociedade é parte importante do sistema neoliberal, pois compensa a desigualdade o suficiente para manter os miseráveis quietos, as ações assistenciais sem o apoio de uma ação mais estrutural, tentam apagar o fogo com gasolina.

Eu não estou fazendo muita coisa (embora eu faça alguma coisa) na direção de trabalhar por mudanças reais pelos pobres. Por isso acho que se eu morresse hoje, eu iria para o inferno. Mas eu acredito que ainda tenho tenho tempo para corrigir essa situação e me tornar um verdadeiro discípulo de Cristo. Quem sabe ano que vem.

Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais

Nós nunca vamos poder dar conta de sequer imaginar o tamanho da sabedoria e do conhecimento de Deus. Quem pode explicá-lo? Quem é inteligente o bastante para dizer a Ele o que fazer? Quem pode ter feito a Ele um favor tão grande que esteja em posição de lhe dar conselhos? Tudo vem dele, existe por ele, e vai para ele, como disse S. Paulo.

“Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais”, diriam os tropicalistas. Mistérios sempre há de pintar por aí. Essa inversão lógica é encontrada na bíblia de maneira muito óbvia, e como quase tudo que é óbvio, passa desapercebida.

Não podemos definir Deus ou encaixá-lo nas nossas caixinhas conceituais. Pensar sobre Deus não é, no entanto, um exercício vão de filosofia. Aquilo que pensamos sobre quem Deus é define quem nós somos.

Se eu, criado à imagem de Deus, sou incompreensível a mim mesmo e aos outros, meu Deus é mais. Ainda assim, se eu sou capaz de amar, de sofrer com os oprimidos e lutar pela sua libertação, de viver em comunidade, de criar, de me relacionar com as pessoas, de não permanecer calado e indiferente frente a um genocídio social… meu Deus é mais.

Se no entanto eu fosse algo capaz apenas de trabalhar para mim mesmo e para o meu próprio bem, em detrimento do próximo… Ou se eu fosse uma pessoa que ninguém apontaria como um sociopata mas que também não se reconhece como uma pessoa que está dando sua vida pela justiça…

Neste caso, ainda que eu vivesse uma vida pacata e sem fazer mal a ninguém, fosse na igreja todos os domingos, estudasse todos os manuais de teologia, aquilo que eu conceituaria como “Deus”, se existisse tal coisa, seria completamente diferente do Deus a quem eu chamo de Pai.

Algo diferente em mim

Por Gilberto Jr, dia 2/02/2009. 2 Comentários

Testemunho de Daniela Leite:

Faz parte da sociedade em que vivemos passarmos desapercebidos por moradores de rua, pessoas que não tiveram sorte e nem oportunidade de ter uma condição de vida mínima para sobreviver… mas nem sempre olhamos… isso quase nunca incomoda.

Hoje comigo, foi diferente. Eu costumo almoçar num restaurantezinho perto do meu trabalho e sempre vi o mesmo morador de rua ali por perto. Hoje, ele me estendeu a mão com R$ 0,25 pedindo comida. Então algo dentro de mim gritou.

Eu perguntei: o que o sr. quer comer? Frango? Carne? Ele me respondeu: o contrário. Eu perguntei: frango? Ele disse: sim. Então entrei no restaurantezinho e pedi um marmitex de frango ao molho, com batata frita. Pedi uma água mineral e voltei para entregar o almoço para ele. Ele me olhou nos olhos, com olhos azuis sujos pela rua e pela dor e chorou. Chorou um choro doído que doeu tão fundo em mim que chorei junto. Ele me agradeceu. Segurou minhas mãos, as beijos e agradeceu. Eu disse: eu que agradeço.

Ele pediu desculpas por ser “vagabundo”. Eu disse que ele não tinha culpa, que ele só não foi muito feliz na vida. Ele me perguntou o “porque”. Eu simplesmente não soube o que responder. Disse que eu gostaria muito de saber, mas que eu infelizmente não tinha a resposta. E o abençoei e fui embora.

Andei pela calçada chorando e me perguntando porque somos tão injustos e pertencemos a um mundo tão injusto. Onde estava Deus que nada fazia? Foi quando me lembrei das palavras que ouvi numa pregação do Ed: “no mundo dos homens, Deus decidiu agir através dos homens”.

Então entendi que Deus agiu através de mim, não só para abençoar aquele senhor com um prato de comida, mas também para tocar no meu coração e me fazer enxergar o quanto dói não ter o que comer. O quanto dói ser ignorado por uma sociedade que se preocupa em comprar, comprar, comprar e deixa pessoas morrerem de fome, de frio.

Eu sofro pelos pobres, famintos, esquecidos. Sofro pelos palestinos, sofro pelos iraquianos, pelas vítimas da guerra e do atual sistema de desenvolvimento. Sofro por mim mesma que me deixei cair em apatia por tanto tempo esperando que Deus faça algo e esquecendo que eu, acreditando em Cristo, deveria agir como Ele.

” Mateus 25:35-40 Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.